O minuto
- A Verra marcou 639.609 créditos do projeto de fogões eficientes da Base Carbon em Ruanda como elegíveis para o CORSIA em 28 de setembro, elevando o total do projeto a 1.959.812 créditos marcados.
- Estimativa da IATA de junho de 2026 aponta demanda de 213 milhões de toneladas de CO2 na primeira fase do CORSIA contra apenas 38 milhões de toneladas de oferta elegível, um déficit potencial de 175 milhões de toneladas.
- O contrato futuro ICE de dezembro de 2026 para CORSIA Fase 1 subiu cerca de 39% desde 30 de junho, segundo dados de mercado da Base Carbon.
Por que importa: O CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation) é o mecanismo da ICAO para compensar o crescimento das emissões da aviação internacional. A primeira fase cobre 2024 a 2026 e obriga operadoras de voos internacionais a cancelar unidades de emissão elegíveis. O déficit entre oferta e demanda não é marginal: a demanda é 4,6 vezes maior que a oferta disponível. Isso transforma cada lote de créditos recém-marcados em um evento de precificação, não apenas um registro.
O que muda para as aéreas brasileiras
O Brasil participa do CORSIA, e companhias com rotas internacionais (GOL, Azul e LATAM, que opera voos a partir do Brasil) precisam cumprir as obrigações de compensação do esquema. Na prática, isso significa que essas operadoras precisam adquirir créditos elegíveis CORSIA para cobrir o crescimento de emissões em rotas internacionais acima da linha de base definida pela ICAO. Com o déficit de 175 milhões de toneladas na primeira fase, o custo desses créditos tende a subir, e a alta de 39% nos futuros desde junho é um indicador dessa pressão.
Aéreas que não travaram preços antecipadamente via contratos futuros ou acordos bilaterais estarão expostas ao mercado spot em um momento de escassez estrutural. Para operadoras brasileiras, que já enfrentam custos elevados de combustível e câmbio desfavorável, o custo adicional de compliance CORSIA entra como mais uma linha de pressão operacional. A segunda fase (2027 a 2035), com 134 estados participantes, ampliará o número de compradores sem necessariamente resolver a restrição de oferta.
SBCE e CORSIA: sistemas paralelos, não conectados
O Brasil está implementando seu próprio mercado regulado de carbono, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), aprovado pela Lei 15.042/2024. O SBCE, porém, cobre emissões domésticas de setores como indústria e energia, não emissões de aviação internacional. CORSIA e SBCE são sistemas paralelos com escopos diferentes: o primeiro é setorial e internacional (aviação), o segundo é multissetorial e doméstico.
Isso significa que créditos gerados ou transacionados dentro do SBCE não são automaticamente elegíveis para CORSIA. Para que créditos brasileiros sirvam ao mercado de aviação, precisam vir de programas aprovados pela ICAO (Verra, Gold Standard, ACR ou os demais aprovados) e atender aos critérios de elegibilidade, incluindo a questão das Cartas de Autorização. Não há informação pública consolidada sobre se o Brasil já emitiu Cartas de Autorização confirmando que créditos usados no CORSIA não serão contabilizados nas metas climáticas nacionais (NDC). Essa decisão é estratégica: autorizar créditos para CORSIA abre o mercado de aviação para projetos brasileiros, mas impede o país de contar essas reduções em sua própria NDC.
Quem ganha e quem perde
Desenvolvedores de projetos que já possuem inventário marcado como CORSIA-elegível, como a Base Carbon com quase 2 milhões de créditos marcados, estão posicionados em um mercado com poucos vendedores e muitos compradores obrigatórios. Projetos brasileiros registrados na Verra ou Gold Standard que obtenham marcação CORSIA também poderiam acessar esse mercado premium, mas dependem das condições de elegibilidade e da posição do governo brasileiro sobre autorização.
Do lado perdedor estão as aéreas que não se prepararam. Operadoras menores com rotas internacionais, sem equipes dedicadas de gestão de carbono, vão entrar no mercado de compliance a preços mais altos. A proposta da Comissão Europeia de integrar o CORSIA na legislação da UE, que segundo a Base Carbon pode gerar pelo menos 29 milhões de toneladas de demanda adicional na primeira fase, adiciona uma camada regulatória que dificulta o adiamento do compliance. Para o Brasil, que tem um dos maiores mercados de aviação da América Latina, a interação entre CORSIA, SBCE e as decisões sobre Cartas de Autorização ainda precisa ser definida com clareza pelo governo federal.
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