O minuto
- A Milkywire fechou acordos de pré-compra de remoção de carbono em nome da Salesforce com oito fornecedores, cobrindo mais de 3.600 toneladas de remoção em captura direta do ar, alcalinização oceânica e armazenamento de biomassa.
- Os contratos fazem parte do compromisso da Salesforce como membro fundador da First Movers Coalition de contratar US$ 100 milhões em soluções de remoção de CO2 até 2030, após 19 acordos anunciados em janeiro de 2026.
- Os fornecedores incluem Sirona Technologies, Yama, Brineworks e Deep Sky (captura direta do ar), PRONOE e Alkamy Carbon (alcalinização oceânica), e Carba e Cowboy Clean Fuels (armazenamento de biomassa).
Por que importa: Acordos de pré-compra de remoção de dióxido de carbono (CDR) com fornecedores em estágio inicial funcionam, na prática, como apostas de capital de risco disfarçadas de procurement. A Salesforce não está comprando créditos de compensação já existentes; está financiando plantas-piloto que podem ou não entregar toneladas daqui a anos. O modelo importa porque transfere risco das startups para o balanço de uma grande corporação, o que em tese permite a essas startups atrair capital adicional e alcançar curvas de custo que tornem a CDR viável em escala. A pergunta é se compradores suficientes vão seguir o exemplo antes de 2030.
O que o modelo de pré-compra financia (e o que não financia)
Um acordo de pré-compra compromete o comprador a pagar por toneladas futuras de remoção a um preço fixado. Isso dá ao fornecedor previsibilidade de receita para financiar a construção de uma unidade-piloto ou de demonstração. Não garante, porém, que a unidade operará na capacidade projetada, que a remoção será permanente, ou que os padrões de monitoramento, relato e verificação (MRV) permanecerão iguais até a entrega. Cada um dos oito fornecedores anunciados está em um nível diferente de maturidade tecnológica. A captura direta do ar tem plantas de referência em operação (Climeworks na Islândia, tecnologia da Carbon Engineering licenciada à 1PointFive no Texas), mas os fornecedores deste portfólio são descritos como estágio inicial, ou seja, suas unidades ainda não foram construídas ou estão em escala piloto. A alcalinização oceânica tem ainda menos histórico operacional em escala comercial. A própria diretora de clima e energia da Salesforce enquadrou o valor dos acordos explicitamente em torno de gerar “aprendizados” para implantações futuras, não em toneladas garantidas.
Quem ganha, quem perde e o que falta decidir
Os vencedores mais claros são os oito fornecedores, que ganham o sinal de financiamento necessário para sair do papel e construir hardware. A Milkywire, que intermedia os acordos, também consolida um nicho como agregadora de referência para procurement corporativo de CDR. Os perdedores, ao menos em posicionamento relativo, são provedores tradicionais de créditos de compensação por evitação (por exemplo, desmatamento evitado ou projetos de fogões eficientes). Cada dólar corporativo direcionado para remoção engenheirada é um dólar que não flui para essas categorias mais antigas, que já enfrentam pressão reputacional sobre questões de adicionalidade. O que ainda falta decidir é se o mercado voluntário de carbono vai convergir para um padrão único de qualidade para CDR. O Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM) publicou os Core Carbon Principles, mas aprovações metodológicas específicas para rotas novas de CDR (alcalinização oceânica em particular) ainda estão em andamento. Até que esses padrões estejam travados, compradores como a Salesforce estão subscrevendo risco tecnológico e risco regulatório ao mesmo tempo.
A dimensão brasileira: mercado regulado ainda silencioso sobre remoção engenheirada
O Brasil promulgou seu marco regulatório do mercado de carbono (Lei 15.042/2024, o SBCE) em dezembro de 2024, criando um sistema de cap-and-trade para entidades reguladas e regras para uso de compensações. Os regulamentos de implementação, que definirão as metodologias de compensação elegíveis, ainda estão sendo elaborados pelo Poder Executivo. Até agora, o debate público em torno do SBCE se concentrou em soluções baseadas na natureza (reflorestamento, desmatamento evitado, carbono no solo), onde o Brasil tem vantagem comparativa evidente. Rotas de CDR engenheirada como captura direta do ar ou alcalinização oceânica estão praticamente ausentes da conversa regulatória.
Essa lacuna importa por dois motivos. Primeiro, empresas brasileiras com compromissos no estilo First Movers Coalition (ou sob pressão de cadeia de suprimento de compradores como a Salesforce) podem precisar adquirir créditos de CDR internacionalmente, já que não existe um pipeline doméstico de projetos de remoção engenheirada. Segundo, se as regras de compensação do SBCE ficarem restritas a metodologias baseadas na natureza, o Brasil pode perder a oportunidade de atrair investimento em infraestrutura de CDR, mesmo tendo um litoral extenso e formações geológicas que poderiam abrigar projetos de alcalinização oceânica ou mineralização de carbono. Não há dados publicamente disponíveis sobre capacidade doméstica de CDR no Brasil, o que por si só ilustra quão incipiente é a discussão. Para empresas brasileiras acompanhando esse espaço, a conclusão prática é que acordos voluntários de pré-compra como o da Salesforce operam inteiramente fora do arcabouço do SBCE, e a interação entre compromissos voluntários de CDR e futuras obrigações reguladas permanece indefinida.
Entre as rotas de remoção, o biochar é uma das que mais crescem em volume contratado, como mostra o acordo Exomad Green e Carbonfuture de 1,1 Mt até 2035.
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