O minuto
- A Archer Daniels Midland (ADM) anunciou que usará captura e armazenamento de carbono (CCS) em uma de suas unidades de processamento de milho no Nebraska para gerar créditos voluntários de carbono.
- A unidade tem capacidade anual de captura superior a 800.000 toneladas de CO2.
- Os créditos serão emitidos pela Puro.earth, registro especializado em créditos de remoção de carbono.
Por que importa: A ADM é uma das maiores empresas de agronegócio do mundo, e sua entrada no mercado voluntário como fornecedora de créditos (não apenas compradora) indica que a captura industrial de carbono está chegando ao ponto em que empresas a enxergam como fonte de receita, não apenas custo. Com mais de 800.000 toneladas de capacidade anual em uma única unidade, a ADM pode se tornar uma das maiores fornecedoras individuais de créditos de remoção por engenharia, justamente quando o mercado voluntário enfrenta excesso de oferta de créditos mais baratos baseados em natureza e questionamentos persistentes sobre qualidade.
Quem ganha e quem perde
O movimento beneficia compradores que buscam créditos de alta permanência. O CCS armazena CO2 em formações geológicas, o que significa que o carbono fica retido por milhares de anos, diferentemente de créditos florestais que podem ser revertidos por incêndio ou mudança de uso do solo. Para compradores corporativos pressionados por frameworks como o SBTi (Science Based Targets initiative) a demonstrar reduções reais de emissões, créditos de CCS oriundos de uma fonte industrial rastreável oferecem uma narrativa mais sólida que muitas alternativas.
Do lado perdedor estão fornecedores de créditos de menor qualidade. Se grandes compradores começarem a direcionar suas compras para remoção por engenharia, projetos que dependem de desmatamento evitado (REDD+) ou fogões eficientes podem ver a demanda encolher ainda mais. O mercado voluntário já passou por uma correção acentuada de preços em 2023 e 2024, conforme preocupações com integridade se acumularam. A ADM colocando 800.000 toneladas de créditos CCS por ano no mercado pode acelerar a separação entre créditos premium de remoção e créditos mais baratos de evitação.
O que muda para o Brasil
O Brasil é uma das maiores fontes mundiais de créditos voluntários de carbono, majoritariamente de projetos REDD+ e reflorestamento na Amazônia e no Cerrado. O movimento da ADM não compete diretamente com esses créditos no papel, já que CCS e soluções baseadas em natureza ocupam categorias diferentes. Na prática, porém, disputam o mesmo orçamento corporativo. Um diretor de sustentabilidade decidindo entre um crédito REDD+ por um preço menor e um crédito CCS com permanência geológica agora tem uma razão mais clara para escolher o segundo, especialmente se a estratégia climática do comprador prioriza remoção em vez de evitação.
Desenvolvedores brasileiros de projetos podem precisar responder melhorando padrões de monitoramento, relato e verificação (MRV) para demonstrar que seus créditos entregam benefícios climáticos duráveis. A presença crescente de players industriais como a ADM no lado da oferta do mercado voluntário eleva a barra para todos os participantes.
O contraste regulatório brasileiro
O Brasil aprovou seu sistema nacional de comércio de emissões, o SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões), por meio da Lei 15.042 sancionada em dezembro de 2024. O mercado regulado ainda está em fase de regulamentação, com o governo trabalhando nos detalhes operacionais, incluindo quais setores serão cobertos, como as permissões serão alocadas, e se créditos voluntários (offsets) poderão ser usados para conformidade. Essa última questão é crítica: se o SBCE permitir créditos voluntários para conformidade, poderá criar demanda doméstica tanto para créditos baseados em natureza quanto para remoção por engenharia. Se não permitir, os dois mercados permanecerão separados.
Diferentemente dos Estados Unidos, onde não há mercado federal de carbono e projetos de CCS operam dentro de uma colcha de retalhos de incentivos estaduais e do crédito fiscal federal 45Q, o Brasil está construindo um arcabouço nacional do zero. Mas o CCS como tecnologia tem aplicação limitada no setor agrícola brasileiro. O perfil de emissões do país é dominado por mudança de uso do solo e agropecuária (metano do rebanho, óxido nitroso de fertilizantes), não por correntes industriais de CO2 facilmente capturáveis. Se empresas brasileiras de agronegócio poderiam replicar a abordagem da ADM em usinas de etanol de milho ou cana é uma questão aberta de engenharia e economia, para a qual faltam dados públicos de viabilidade.
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