O minuto
- As emissões globais de CO2 por combustíveis fósseis devem cair cerca de 0,5% em 2026 em relação a 2025, segundo análise do Carbon Brief baseada nas previsões mais recentes da Agência Internacional de Energia (AIE) para carvão, petróleo e gás.
- A AIE revisou sua previsão de demanda de petróleo para 2026 de um aumento de 930 mil barris por dia (bpd) em janeiro para uma queda de 2,5 milhões de bpd em setembro, equivalente a uma redução de 2,4% em relação a 2025, conforme o conflito EUA-Irã seguiu interrompendo o estreito de Hormuz.
- A demanda por carvão deve subir 1,2% em 2026, impulsionada em parte por preços mais altos de gás e por um El Niño forte que eleva a necessidade de refrigeração, mas o aumento das emissões do carvão é mais que compensado pelas quedas de petróleo e gás.
Por que importa: É a primeira vez que um choque geopolítico de energia produz queda líquida de emissões em vez de uma corrida a combustíveis mais sujos. Crises anteriores, como os embargos de petróleo dos anos 1970 e a interrupção do gás russo para a Europa em 2022, provocaram aumento no consumo de carvão que anulou qualquer economia. A diferença em 2026 é que as alternativas, especialmente veículos elétricos e renováveis, já são baratas e escaláveis o suficiente para absorver parte relevante da demanda fóssil deslocada. Se o padrão se mantiver, sinaliza que o sistema energético global cruzou um limiar estrutural.
O que muda para o Brasil: exportador de petróleo, importador de GNL
O Brasil ocupa uma posição incomum nessa crise: é ao mesmo tempo grande produtor de petróleo (pré-sal) e um país cuja matriz elétrica depende fortemente de hidrelétrica, que o El Niño está deprimindo. Do lado do petróleo, a revisão da AIE para baixo na demanda global coloca pressão direta sobre a receita de exportação. A Petrobras e outras operadoras do pré-sal planejam projetos de longo ciclo com horizontes de retorno que ultrapassam uma década. Se a demanda global não se recuperar como a AIE antes projetava (o cenário agora é de consumo praticamente estável até 2027), o cálculo de viabilidade desses investimentos se complica. Cada barril produzido encontra um mercado menor e preços mais baixos simultaneamente.
Do lado do gás, o Brasil importa gás natural liquefeito (GNL) para alimentar termelétricas que cobrem a geração quando os reservatórios das hidrelétricas caem. Com o El Niño forte reduzindo a geração hídrica em mercados relevantes (o Carbon Brief menciona o fenômeno como fator global), o Brasil tende a acionar mais térmicas exatamente no momento em que o GNL está mais caro por causa de Hormuz. Isso encarece a conta de luz e pressiona a inflação. Países que dependiam de importação de GNL estão sinalizando mudança para energia limpa doméstica ou extensão do uso de carvão, segundo a AIE. O Brasil, que já tem base renovável forte, tem a opção de acelerar eólica e solar em vez de contratar mais GNL, mas isso depende de decisões regulatórias que ainda não foram tomadas.
Quem ganha e quem perde
Globalmente, fabricantes de veículos elétricos e a cadeia de eletrificação são os vencedores mais visíveis. O Carbon Brief aponta que vendas de EVs quase dobraram em julho em mercados fora de China, Europa e América do Norte. No Brasil, o mercado de EVs e híbridos vem crescendo, e preços mais altos de gasolina e diesel por conta de Hormuz reforçam esse movimento. Montadoras com fábricas locais voltadas à eletrificação se beneficiam; distribuidoras de combustíveis fósseis e refinarias enfrentam o cenário oposto.
Entre os perdedores estão economias exportadoras de petróleo que construíram seus orçamentos fiscais presumindo crescimento contínuo da demanda. A AIE projetava anteriormente que a demanda global de petróleo só atingiria o pico em 2030. A crise de Hormuz pode ter antecipado esse ponto de inflexão em anos. Como escreveu Sverre Alvik, vice-presidente da consultoria DNV, em análise de final de agosto, cada mês adicional de conflito aumenta a probabilidade de destruição permanente de demanda. Para o Brasil, que projetou leilões de blocos exploratórios e receitas de royalties com base em cenários de demanda crescente, a revisão impõe cautela.
Mesmo com essa queda, o PNUMA avalia que o mundo passará de 1,5°C antes de qualquer retorno.
No bloco europeu, a UE aprovou € 4,8 bi para a transição limpa da Grécia.
No Brasil, a expansão segue: o IBAMA liberou mais poços da Petrobras na Foz do Amazonas.
Na China, o plano para o carvão mira o pico de consumo em 2030.
O que ainda não está decidido
Várias variáveis vão determinar se a queda de emissões de 2026 se torna tendência ou fica como anomalia de um ano. Primeiro, a duração da disrupção em Hormuz. Um cessar-fogo poderia derrubar preços de gás e petróleo rapidamente, revertendo o incentivo à troca de combustíveis. Segundo, a trajetória do carvão em 2027 depende dos preços do gás: a AIE diz que a demanda por carvão pode subir de novo se o gás continuar caro, ou cair se os preços aliviarem. Terceiro, governos que sinalizaram mudança para energia limpa doméstica em lugar de GNL importado ainda não converteram esses sinais em política vinculante. A distância entre anúncio e implementação definirá se a mudança estrutural é real. No Brasil, a regulamentação do mercado de carbono (SBCE) segue em construção, e um cenário de emissões fósseis globais em queda pode alterar premissas de preço e demanda por créditos que fundamentam o desenho desse mercado.
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