esgminute Notícias ESG, créditos de carbono e sustentabilidade, em 1 minuto
Notícias ESG

Fundo Clima pode chegar a R$ 54,7 bi em 2027

Read in English → Por · Atualizado em 01/10/2026, 03:35 · ⏱ leitura de 4 min
Cédulas de real
Foto: Tolga deniz Aran / Pexels

O minuto

  • O Executivo propôs R$ 54,7 bilhões para o Fundo Clima em 2027 no PLOA enviado ao Congresso no fim de agosto, alta de 28% sobre os R$ 42,5 bilhões orçados em 2026.
  • A quase totalidade do valor é destinada a operações de crédito via BNDES e Eco Invest; a parcela não reembolsável é de R$ 5,9 milhões, ou 0,01% do total.
  • Em 2025, dos R$ 24,2 bilhões orçados, o BNDES aprovou R$ 12,5 bilhões e desembolsou apenas R$ 6,78 bilhões; em 2026, até agosto, apenas R$ 6,6 bilhões foram aprovados de um gasto autorizado de R$ 27,5 bilhões.

Por que importa: O Fundo Clima saltou de orçamentos na casa dos milhões antes de 2024 para R$ 54,7 bilhões propostos em 2027, consolidando-se como um dos maiores instrumentos de financiamento climático da América Latina. Porém, o crescimento do orçamento não foi acompanhado pelo ritmo de execução. A distância entre valor orçado, valor aprovado e valor efetivamente desembolsado levanta uma questão estrutural: se a capacidade operacional do BNDES e do sistema de crédito público consegue acompanhar a escala que a política climática exige, ou se os números de manchete mascaram uma execução lenta.

O que o gargalo significa para empresas brasileiras

Para empresas que buscam financiamento para descarbonização, transição energética ou adaptação climática, o crescimento do Fundo Clima é, em tese, positivo. Na prática, o caminho entre a aprovação de uma operação e o dinheiro na conta passa por três etapas (aprovação, contratação, desembolso), e cada uma introduz semanas ou meses de espera. Em 2025, o BNDES aprovou R$ 12,5 bilhões, mas desembolsou R$ 6,78 bilhões, o que significa que cerca de 46% do montante que passou pela primeira porta não chegou à execução naquele ano. Em 2026, o padrão se repete: até agosto, R$ 6,6 bilhões foram aprovados, mas até 31 de julho apenas R$ 4,6 bilhões haviam avançado para a etapa de contratação, segundo levantamento do Instituto Talanoa com base no Painel do Fundo Clima do BNDES.

Na ponta, isso afeta o planejamento de projetos intensivos em capital. Uma usina solar, um programa de eficiência energética industrial ou a eletrificação de frotas dependem de cronogramas apertados. Quando o desembolso atrasa, a empresa precisa recorrer a crédito ponte (mais caro), renegociar prazos com fornecedores ou, em alguns casos, perder janelas regulatórias e de incentivos. O problema também levanta a dúvida sobre se o BNDES tem quadro técnico e processos internos suficientes para gerir uma carteira que quadruplicou em três anos.

Entre os recursos externos para florestas, o Reino Unido anunciou £400 milhões ao TFFF, com atraso.

O que ainda não está decidido

O valor de R$ 54,7 bilhões é uma proposta dentro do PLOA, não uma dotação garantida. O Congresso precisa aprovar o orçamento, e parlamentares podem ajustar o montante durante a tramitação, que costuma se estender até dezembro. Mesmo que o valor integral seja mantido, a alocação quase nula para recursos não reembolsáveis (R$ 5,9 milhões em R$ 54,7 bilhões) indica que o fundo segue sendo essencialmente uma linha de crédito, não um mecanismo de doação. Isso importa porque projetos de adaptação em municípios vulneráveis, restauração de ecossistemas e capacitação, áreas onde não há geração de receita para repagar empréstimos, ficam praticamente excluídos do Fundo Clima na configuração atual.

Há também a questão da transparência. O Painel do Fundo Clima, mantido pelo BNDES, publica detalhes das operações somente após a contratação, com defasagem de aproximadamente um mês em relação à aprovação. No intervalo entre aprovação e contratação, a sociedade civil não tem visibilidade sobre quem está recebendo os recursos e para quais projetos. O Instituto Talanoa apontou que, até julho de 2026, apenas dois contratos apareceram na planilha de operações não automáticas do BNDES (modalidade usada para financiamentos de maior porte com análise individualizada).

Quem ganha e quem perde com a estrutura atual

Os principais beneficiários da expansão do Fundo Clima são grandes empresas com relacionamento consolidado com o BNDES e capacidade de navegar o processo de crédito não automático. Esse perfil concentra-se em setores como energia, infraestrutura e indústria pesada. Pequenas e médias empresas, prefeituras e organizações comunitárias enfrentam barreiras maiores de acesso, tanto pela insignificância do componente a fundo perdido quanto pela complexidade do processo de análise do banco.

Do lado perdedor, projetos de adaptação climática e programas ambientais sem retorno financeiro continuam marginalizados. Com a parcela não reembolsável em 0,01% do total, a estrutura do fundo privilegia implicitamente projetos de mitigação que geram receita (e podem repagar empréstimos) em detrimento de medidas de adaptação que protegem populações, mas não produzem retorno financeiro. Enquanto a fatia de recursos a fundo perdido não crescer de forma substancial, o Fundo Clima funcionará menos como instrumento abrangente de política climática e mais como linha de crédito verde subsidiada para projetos bancáveis. Em 2025, o PAAR previu R$ 4,46 milhões para recursos a fundo perdido, valor simbólico diante do orçamento total.

via Reset

Quer isto por e-mail?

Ainda não existe newsletter. Deixe seu e-mail e você será avisado no dia em que existir, antes de qualquer outra pessoa.

Politica de Privacidade