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Créditos de Carbono

Verra lança padrão Escopo 3: o que muda no Brasil

Read in English → Por · Atualizado em 01/10/2026, 03:36 · ⏱ leitura de 4 min
Contêineres de carga num porto
Foto: Fakhri Abbas / Pexels

O minuto

  • A Verra lançou o programa Scope 3 Standard (S3S), que permite quantificar, verificar e certificar reduções e remoções de emissões em projetos dentro da cadeia de valor corporativa, com cada unidade (S3U) representando uma tonelada de CO2 reduzida ou removida.
  • A Versão 1 permite listar projetos no registro da Verra usando metodologias adaptadas do VCS para gestão aprimorada de terras agrícolas e produção de concreto de baixo carbono, com setores adicionais (florestas, combustíveis industriais, superpoluentes, refrigeração) previstos.
  • O programa foi desenvolvido com contribuições de mais de 100 especialistas e testado com empresas como Bayer, Patagonia, 3Degrees, Rabobank, 3M, Diageo e outras, e foi desenhado para ser compatível com o padrão Net-Zero do SBTi, o GHG Protocol, a ISO 14068 e a Plataforma AIM.

Por que importa: Mais de 40% das maiores empresas públicas do mundo têm metas net-zero que incluem emissões de Escopo 3, mas até agora não existia um sistema independente e abrangente para certificar reduções obtidas por investimentos na cadeia de valor. O S3S da Verra tenta preencher essa lacuna aplicando a mesma disciplina de validação e verificação do Verified Carbon Standard (VCS) a projetos dentro da cadeia. A questão prática é se esse arcabouço vai avançar rápido o suficiente, e cobrir setores suficientes, para se tornar o padrão de referência.

O que isso muda para empresas brasileiras

O Brasil é um dos maiores fornecedores globais de commodities agrícolas. Empresas brasileiras do agronegócio que fazem parte da cadeia de valor de multinacionais com metas net-zero são candidatas naturais a hospedar projetos sob o S3S, já que uma das duas metodologias iniciais cobre gestão aprimorada de terras agrícolas. Na prática, isso significa que uma multinacional compradora de soja, café ou carne poderia financiar projetos de redução de emissões em fazendas fornecedoras no Brasil e buscar verificação pela Verra para gerar S3Us. Para o produtor brasileiro, a consequência é dupla: potencial acesso a financiamento atrelado a metas climáticas do comprador, mas também uma nova camada de exigências de monitoramento, relato e verificação independente que se soma às já existentes.

O concreto de baixo carbono, a segunda metodologia disponível, também tem relevância direta. O setor de cimento brasileiro tem iniciativas próprias de descarbonização, incluindo o Roadmap Tecnológico do Cimento publicado pelo SNIC e pela ABCP. Porém, o S3S cria um canal paralelo: uma construtora global com operações no Brasil poderia usar o programa da Verra para verificar reduções em fornecedores brasileiros de concreto, em vez de depender exclusivamente de inventários corporativos autoavaliados. A questão é se essa verificação externa será reconhecida pelos órgãos e iniciativas brasileiras ou se funcionará como um sistema paralelo sem integração local.

Comparação com o arcabouço brasileiro

O Brasil não tem um programa equivalente ao S3S voltado especificamente para certificação de reduções de Escopo 3 na cadeia de valor. O que existe é o Programa Brasileiro GHG Protocol, coordenado pela FGVces, que permite a empresas reportar inventários de emissões incluindo Escopo 3, mas sem um mecanismo de verificação independente que gere unidades certificadas e rastreáveis como os S3Us da Verra. O mercado regulado de carbono brasileiro, em fase de regulamentação pelo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), foca em emissões diretas de setores regulados, não em reduções voluntárias na cadeia de valor. Isso significa que, por ora, não há um mecanismo nacional que cumpra a função que o S3S propõe. Empresas brasileiras que quiserem usar S3Us em seus relatórios de Escopo 3 dependerão da aceitação dessas unidades pelas estruturas internacionais (SBTi, GHG Protocol) com as quais a Verra afirma compatibilidade, mas essa aceitação formal ainda não foi confirmada por nenhum desses organismos.

O que ainda não está decidido

Vários pontos estruturais permanecem em aberto. A Versão 1, como lançada, permite apenas a listagem de projetos no registro. A abertura de registro, validação e verificação para esses projetos listados será feita em uma atualização futura da Versão 1, sem data anunciada. Isso significa que nenhum S3U pode ser emitido ainda. A Versão 2, que fornecerá orientações para empresas demonstrarem associação verificada com a cadeia de valor e gerarem unidades reportáveis para inventários de Escopo 3, também não tem cronograma público. A precificação dos S3Us em relação a créditos de carbono VCS tradicionais não foi definida. A expansão para setores como florestas (relevante para o Brasil), combustíveis industriais, superpoluentes e refrigeração é descrita apenas como planejada. E a governança de como metodologias VCS são adaptadas para uso no S3S, incluindo quem aprova essas adaptações, não está detalhada no anúncio. Para empresas brasileiras, a ausência do setor florestal na Versão 1 é particularmente significativa, dado que o Brasil concentra grande parte dos projetos florestais registrados no VCS globalmente. Até que essa metodologia seja adaptada e disponibilizada, o programa tem aplicabilidade limitada para um dos setores mais relevantes do país no mercado voluntário de carbono.

via ESG Today

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