O minuto
- A GSK assinou contrato de oito anos com a Varaha, empresa indiana de clima, estruturado pela plataforma Earthly, cobrindo mais de 500 mil créditos de carbono de agricultura regenerativa em 50 mil hectares de lavouras familiares em Punjab e Haryana.
- O projeto deve gerar cerca de 100 mil toneladas de créditos de remoção por ano entre 2028 e 2033, registrado na Verra sob a metodologia VM0042 (Projeto 3346), com upgrade para a versão 2.2 em andamento.
- Monitoramento anterior em 42 mil hectares reportou cerca de 4.574 toneladas de emissões de PM2,5 evitadas, aproximadamente 59,5 bilhões de litros de água economizados e aumento de 12% a 16% na renda das famílias participantes.
Por que importa: Contratos de longo prazo para créditos de carbono agrícolas são raros no mercado voluntário. A maioria das transações é pontual, o que não dá segurança para desenvolvedores de projetos investirem em equipamentos, assistência técnica e medição. Um compromisso de oito anos de uma grande farmacêutica sinaliza que compradores corporativos estão começando a tratar remoção de carbono agrícola como categoria estratégica de compra. O modelo também testa se finanças de carbono conseguem resolver um problema de saúde pública (queima de resíduos agrícolas) mudando os incentivos econômicos que o provocam.
O que muda para empresas brasileiras
O Brasil tem a maior área de plantio direto do mundo e um setor agropecuário que responde por parcela significativa das emissões nacionais. A estrutura do acordo GSK-Varaha (contrato longo, metodologia Verra com upgrade para CCP, co-benefícios mensurados trimestralmente) é diretamente replicável em projetos brasileiros de agricultura de baixo carbono. Empresas brasileiras que exportam commodities agrícolas e enfrentam exigências de due diligence de desmatamento da União Europeia (EUDR) e de divulgação climática (CSRD para quem tem operações na UE) podem usar acordos semelhantes para demonstrar redução de emissões na cadeia de valor, Escopo 3.
O Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), programa do governo federal que cobre o período 2020-2030, promove práticas como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e recuperação de pastagens degradadas. Essas práticas são elegíveis sob a mesma metodologia VM0042 da Verra usada no projeto indiano. A diferença é que o Plano ABC+ opera via crédito rural subsidiado (linhas do Plano Safra), enquanto o modelo indiano usa receita de créditos de carbono e acesso a maquinário. O resultado prático é que no Brasil o financiamento público subsidia a transição, mas não gera receita recorrente para o produtor da forma que um contrato de créditos de carbono faz.
Mercado regulado brasileiro e a questão agrícola
O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei 15.042/2024, vai regular emissões de instalações com mais de 10 mil toneladas de CO2 equivalente por ano. A agropecuária ficou, por enquanto, fora do escopo de obrigações diretas do SBCE. Isso significa que créditos agrícolas brasileiros, pelo menos no curto prazo, dependem do mercado voluntário, exatamente o mesmo mercado em que o acordo GSK-Varaha opera.
O que ainda não está decidido é se o SBCE vai aceitar créditos de projetos agrícolas como offsets para setores regulados. Essa definição dependerá da regulamentação que o governo ainda precisa publicar. Se offsets agrícolas forem aceitos, a demanda por projetos brasileiros sob VM0042 ou metodologias equivalentes pode crescer de forma relevante. Se não forem, o mercado voluntário continuará sendo o único canal, e acordos bilaterais de longo prazo como o da GSK serão o formato mais viável para dar escala a projetos no campo.
Queimadas e a comparação que falta
O projeto indiano ataca diretamente a queima de resíduos agrícolas. Na Índia, Punjab registrou 5.114 focos de queimada agrícola na safra 2025, queda de 53% em relação a 2024. O Brasil também enfrenta queimadas em larga escala, mas o contexto é diferente: a maior parte dos focos está associada a desmatamento e manejo de pastagem, não à queima de palhada pós-colheita como na Índia. Comparar os dois países em número de focos sem essa distinção de causa seria enganoso, e por isso não cabe uma equivalência direta aqui.
O que é comparável é o mecanismo: usar receita de créditos de carbono para financiar a mudança de prática do agricultor. No Brasil, iniciativas de créditos de carbono no campo existem (há projetos registrados na Verra com metodologias agrícolas), mas dados públicos consolidados sobre volume emitido, preço médio e número de produtores participantes ainda são escassos. Sem esses números, não é possível dizer com precisão o quão atrás ou à frente o Brasil está em relação ao modelo indiano.
Para o mercado de carbono voluntário global, o acordo GSK-Varaha indica que compradores de alta exigência estão dispostos a pagar por contratos longos com co-benefícios verificados. Empresas brasileiras do agronegócio que queiram acessar esse tipo de comprador precisarão de projetos registrados sob metodologias atualizadas (como VM0042 v2.2), com monitoramento transparente e verificação independente.
No arroz, a parceria entre Google e Terradot para remoção de carbono em arrozais mostra outra frente do carbono agrícola.
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