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Créditos de Carbono

Google e Terradot: remoção de carbono em arrozais

Read in English → Por · Atualizado em 01/10/2026, 03:35 · ⏱ leitura de 5 min
Vista aérea de arrozais
Foto: thanhhoa tran / Pexels

O minuto

  • O Google comprará 1 milhão de toneladas CO2e em eliminação de metano até 2030 e mais 1 milhão de toneladas em remoção de carbono até 2040 da Terradot, seu maior acordo de remoção de CO2 até hoje.
  • O projeto implantará irrigação por Umedecimento e Secagem Alternados (AWD) e intemperismo mineral acelerado (ERW) em mais de 200 mil hectares de arrozais no Brasil.
  • O cultivo de arroz responde por aproximadamente 12% das emissões globais de metano, sendo a segunda maior fonte de metano agrícola depois da pecuária.

Por que importa: Este é o primeiro acordo conhecido que combina eliminação de metano no curto prazo com remoção durável de carbono em escala, e será executado em solo brasileiro. O projeto transforma arrozais, tradicionalmente fontes relevantes de metano, em ativos climáticos duplos. Para o mercado voluntário de carbono, a estrutura pode criar precedente de precificação e metodologia para créditos de remoção combinados que unem redução de poluentes climáticos de vida curta com sequestro duradouro de CO2.

O que muda para os rizicultores brasileiros

Os mais de 200 mil hectares cobertos pelo acordo representam uma fatia expressiva da rizicultura nacional, concentrada no Rio Grande do Sul. Os agricultores participantes adotarão AWD, técnica de irrigação que drena periodicamente os arrozais inundados em vez de mantê-los submersos de forma contínua. Segundo a fonte, os benefícios incluem redução de uso e custo de água com o AWD, além de melhoria na saúde do solo pelo basalto triturado espalhado nos campos como parte do processo de ERW.

Na prática, isso significa uma nova linha de receita sobreposta à produção de arroz. Os agricultores passam a ser fornecedores em uma cadeia de remoção de carbono financiada por uma Big Tech. O acordo também introduz logística de ERW em escala industrial (britagem, transporte e distribuição de basalto) em áreas rurais, o que pode gerar emprego local, mas levanta questões sobre prontidão de infraestrutura e custo de escalar cadeias de suprimento de rocha em regiões agrícolas distantes dos centros de mineração.

Como o acordo se encaixa no mercado de carbono brasileiro

O Brasil promulgou a Lei 15.042 em dezembro de 2024, criando o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o mercado regulado de carbono do país. O sistema ainda está em fase de regulamentação, com regras sobre setores elegíveis, metodologias de compensação e registros de créditos por definir. O acordo Google-Terradot opera no mercado voluntário, não sob o SBCE, mas as metodologias que ele valida (AWD para metano e ERW para remoção de carbono) poderão eventualmente alimentar o mercado regulado quando o governo definir quais protocolos de compensação agrícola serão aceitos.

O Brasil também mantém o Plano ABC+ (Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), que incentiva práticas agrícolas inteligentes para o clima, mas não gera diretamente créditos de carbono negociáveis. O AWD é coerente com os objetivos do Plano ABC+, porém o plano historicamente priorizou pecuária, recuperação de pastagens degradadas e plantio direto, mais do que metano de arrozais. Uma demonstração em larga escala de que o AWD funciona economicamente em arrozais brasileiros pode pressionar formuladores de política a incluir metas específicas de redução de metano no arroz em futuras revisões do plano.

Outro contrato de longo prazo no carbono agrícola asiático é o da GSK com a Varaha, de oito anos, na agricultura indiana.

O que ainda não está decidido

Várias questões em aberto determinarão se este acordo se torna o “modelo replicável” que o Google diz querer. Primeiro, o arcabouço de monitoramento, relato e verificação (MRV) para créditos combinados de metano e carbono ainda não é padronizado. A fonte não especifica qual certificadora ou metodologia validará as toneladas compradas. Sem um padrão reconhecido, a replicabilidade para outros compradores e geografias permanece incerta.

Segundo, a contabilidade de permanência para remoção de carbono via ERW ainda é debatida na comunidade científica. O intemperismo mineral acelerado fixa carbono em carbonatos minerais, o que é considerado durável, mas a medição em campo de quanto CO2 cada hectare realmente sequestra varia conforme tipo de solo, pluviosidade e mineralogia da rocha. Escalar para 1 milhão de toneladas de remoção verificada até 2040 exigirá protocolos robustos de medição que ainda não existem nessa escala.

Terceiro, o risco de adesão dos agricultores é concreto. O AWD exige mudanças na infraestrutura de irrigação e nas práticas de manejo hídrico. Se os incentivos econômicos (economia de água mais pagamentos da Terradot) não superarem claramente os custos de adoção e os riscos percebidos de produtividade, a participação pode ficar abaixo da meta de 200 mil hectares. O acordo não divulga os termos de pagamento aos agricultores individuais.

Por fim, do ponto de vista competitivo, o acordo sinaliza que compradores de Big Tech estão dispostos a pagar por créditos de metano agrícola combinados com remoção durável. Isso pode atrair mais startups de ERW e desenvolvedores de projetos AWD ao Brasil, aumentando a concorrência por parcerias com produtores rurais, mas também elevando preços de créditos e o rigor metodológico. Desenvolvedores tradicionais de créditos voluntários focados em florestas (REDD+) podem enfrentar uma mudança na preferência dos compradores em direção a créditos baseados em remoção com co-benefícios agrícolas.

via ESG Today

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