A VM0041 é a metodologia da Verra que gera créditos pela redução do metano entérico, o gás que bovinos, ovinos, caprinos e outros ruminantes liberam principalmente ao arrotar e respirar. O título oficial é Methodology for the Reduction of Enteric Methane Emissions from Ruminants through the Use of Feed Ingredients. Este guia mostra como funciona o cálculo, quais dados a fazenda precisa ter e o que o verificador vai cobrar. Equações, tabelas e valores padrão estão no documento oficial da VM0041 no site da Verra.
Não confunda com a VM0051, que é a metodologia da Verra para arroz. Para arroz, veja nosso guia de créditos de metano em arroz.
A VM0041 em resumo
- Versão vigente: v2.0, aprovada em 21 de dezembro de 2021 e listada como ativa pela Verra.
- Escopo setorial: 15, pecuária e manejo de dejetos. Aplicação global.
- O que credita: apenas reduções, obtidas com ingredientes que inibem ou suprimem a metanogênese no rúmen.
- Revisão em curso: a Verra abriu consulta pública de uma v3.0 entre 8 de outubro e 7 de novembro de 2025 para alinhar a VM0041 aos Princípios Fundamentais de Carbono (CCP) do ICVCM (anúncio da Verra). Na nossa checagem, a v2.0 continua sendo a versão em vigor.
- Selo CCP: a VM0041 v2.0 aparece na categoria de metano entérico do painel de avaliações do ICVCM, mas ainda sem decisão de aprovação.
- CORSIA: o programa VCS é elegível no CORSIA, e a Verra inclui a VM0041 entre as metodologias elegíveis na primeira fase (2024-2026). Cada crédito ainda precisa do rótulo CORSIA, que para safras a partir de 2021 exige autorização do país anfitrião e ajuste correspondente (página da Verra sobre CORSIA).
Condições de aplicabilidade
Na v2.0, de forma resumida:
- Os animais são ruminantes e recebem um ingrediente que reduz o metano entérico agindo sobre as arqueias metanogênicas ou sobre o ambiente do rúmen.
- O ingrediente cumpre as normas de alimentação animal de cada jurisdição onde é consumido (vale a regra mais rígida), não prejudica a saúde do animal e é usado conforme a bula do fabricante, inclusive a dose por quilo de matéria seca ingerida.
- Ganhos vindos de outras estratégias, como melhora de produtividade ou ajustes gerais de nutrição, não podem ser creditados.
- O ingrediente precisa ser rastreável do fabricante até o cocho.
- É preciso comprovar que as emissões dos dejetos não aumentam. Se aumentarem, o metano e o óxido nitroso dos dejetos entram como emissões do projeto.
- Fazendas em operação precisam de registros históricos confiáveis (consumo de ração, composição da dieta) por grupo de animais: no mínimo dois anos para a linha de base por medição direta e três anos para a linha de base pelo modelo do IPCC. Propriedades sem registros podem usar médias estatísticas regionais.
A adicionalidade segue o método de atividade: o projeto demonstra excedente regulatório e cumpre todas as condições de aplicabilidade, que funcionam juntas como lista positiva.
Como se determina a linha de base
A linha de base é o cenário de sempre: o mesmo rebanho, na dieta habitual, sem o ingrediente. As emissões são calculadas por fazenda e por grupo de animais (agrupados por tipo, peso, fase produtiva ou regime alimentar) e convertidas em tCO2e pelo potencial de aquecimento global do metano. A metodologia oferece três opções para o fator de emissão entérica, escolhidas por grupo conforme os dados disponíveis:
- Medição direta. O metano por cabeça por dia é medido na propriedade com câmaras respirométricas ou sistemas automáticos de câmara de cabeça, com amostragens pontuais repetidas. O resultado é multiplicado pelo número médio de cabeças e pelos dias que cada animal passou no grupo. Depois de definido, esse fator fica fixo durante o período de creditação.
- Modelo Tier 2 do IPCC. O fator é montado a partir da ingestão de energia bruta (matéria seca ingerida vezes a densidade energética da dieta), do fator de conversão Ym (a parcela da energia bruta perdida como metano), do conteúdo energético do metano, do número de cabeças e dos dias.
- Fatores de emissão padrão. Quando faltam dados para o Tier 2, aplicam-se fatores por cabeça nacionais ou regionais, ou os do apêndice da metodologia, ao número de cabeças e aos dias.
Como se determinam as emissões do projeto
As emissões do projeto partem do mesmo fator de emissão do grupo, reduzido pelo fator de redução de emissões (ERF) do ingrediente. A isso se somam as emissões da fabricação e do transporte do ingrediente (energia elétrica e combustível fóssil por quilo produzido, mais distância e modal de transporte), salvo se forem comprovadamente insignificantes, e qualquer aumento estatisticamente significativo nas emissões dos dejetos.
O ERF pode ser definido de duas formas:
- Metanálise: percentual de redução extraído de pelo menos três estudos revisados por pares, publicados em periódicos indexados no Science Citation Index Expanded. As condições do projeto (tipo de animal, consumo de matéria seca, fibra, instalações) precisam estar dentro da faixa coberta pelos estudos.
- Medição direta: o metano é medido nos animais que recebem o ingrediente no primeiro período de monitoramento e comparado com o fator da linha de base. Vale para todo o período de creditação se o manejo não mudar.
Na v2.0, o vazamento é considerado zero. A redução líquida é a soma, entre as fazendas, das emissões da linha de base menos as emissões do projeto.
Dados e monitoramento necessários
- Número de cabeças por grupo e datas de início e fim do fornecimento do ingrediente.
- Consumo de matéria seca, densidade energética ou teor de gordura da dieta, fibra (FDN) e o Ym adotado.
- Medições de metano e protocolos, se houver medição direta.
- Registros de fornecimento que sigam a dose do fabricante, além de notas fiscais ou comprovantes de entrega com número de lote que provem a quantidade comprada.
- Dados do fabricante sobre energia e combustível por quilo de ingrediente e distâncias de transporte.
- Calibração dos equipamentos e arquivo eletrônico dos dados por pelo menos dois anos após a primeira verificação.
Relatório de monitoramento
O relatório apresenta, por fazenda e por grupo, a opção escolhida para a linha de base e para o ERF, os valores dos parâmetros e suas fontes, as emissões calculadas de linha de base e de projeto e a trilha de evidências do fornecimento. O verificador cruza o ingrediente comprado com os animais e dias declarados; divergência aí é o jeito mais rápido de perder créditos.
Erros comuns
- Citar a VM0051 ou outra metodologia nos documentos do projeto. A VM0051 é de arroz.
- Usar um ERF de metanálise para dieta ou tipo de animal fora da faixa dos estudos de origem.
- Declarar animais que não receberam a dose completa durante todo o período, ou não ter comprovante de compra por lote.
- Ignorar o efeito nos dejetos quando o ingrediente altera a digestibilidade.
- Prometer selo CCP. A VM0041 ainda está em avaliação no ICVCM.
Por que isso importa no Brasil
O Brasil fechou 2025 com 234,3 milhões de cabeças de bovinos, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE divulgada em setembro de 2026 (Agência Gov). O obstáculo prático é a dosagem: a VM0041 exige provar que cada animal recebeu o ingrediente conforme a bula, mais simples em confinamentos e na pecuária leiteira do que no pasto extensivo. O mercado regulado brasileiro não impõe obrigações à produção primária agropecuária, então esses projetos ficam no mercado voluntário; veja quem precisa reportar no SBCE.
Perguntas frequentes
A VM0041 é a mesma coisa que a VM0051?
Não. A VM0041 trata do metano entérico de ruminantes por meio de ingredientes na dieta. A VM0051 trata do metano do cultivo de arroz.
Quais ingredientes se qualificam?
Desde a v2.0, qualquer ingrediente aprovado para uso animal e com eficácia comprovada cientificamente, como o 3-nitrooxipropanol ou produtos à base de algas, desde que cumpra todas as condições de aplicabilidade.
Rebanho a pasto pode usar a VM0041?
Em princípio, sim, mas o projeto precisa rastrear e documentar que os animais a pasto de fato consumiram o ingrediente na dose indicada.
Os créditos da VM0041 têm selo CCP?
Ainda não. A metodologia está em avaliação no ICVCM.
Informações verificadas em 13/10/2026 na página da metodologia na Verra, no painel de avaliações do ICVCM e na página da Verra sobre CORSIA.
Acompanhe mudanças de status desta e de outras metodologias no Methodology Watch (em inglês). Leia também: VM0041: como funciona a metodologia de metano entérico, o que são os selos CCP e VM0051: guia da metodologia para arroz.
Ainda não existe newsletter. Deixe seu e-mail e você será avisado no dia em que existir, antes de qualquer outra pessoa.