esgminute Notícias ESG, créditos de carbono e sustentabilidade, em 1 minuto
Guias

Relatório de sustentabilidade: como fazer o primeiro

Read in English → Por · Atualizado em 01/10/2026, 03:36 · ⏱ leitura de 7 min
Relatório de sustentabilidade: como fazer o primeiro da empresa

O minuto

  • Escolha o padrão antes de escrever: GRI para impacto amplo, ISSB para investidor
  • Materialidade define o recorte: reporte o que é relevante para o negócio e para quem lê
  • Todo indicador precisa de método declarado e período, senão vira folheto de marketing

Por que importa: Relatório sem método é peça publicitária, e peça publicitária com dado ambiental é exatamente o que a fiscalização de greenwashing procura.

Escolha o padrão

O GRI olha o impacto da empresa no mundo; o ISSB olha o risco do mundo sobre a empresa (financeiro). Muita gente usa os dois, começando pelo que o público principal pede.

As Normas GRI têm três camadas: as Normas Universais (GRI 1, 2 e 3), que valem para qualquer organização; as Normas Setoriais, para impactos específicos de cada indústria; e as Normas Temáticas, com as divulgações de cada assunto, como emissões, água ou saúde e segurança. As Universais revisadas entraram em vigor para relatos a partir de 1º de janeiro de 2023, e todas as normas podem ser baixadas gratuitamente, em vários idiomas.

As normas do ISSB, IFRS S1 (requisitos gerais) e IFRS S2 (clima), foram feitas para o mercado de capitais: a pergunta é se o tema de sustentabilidade cria risco ou oportunidade financeira que um investidor gostaria de conhecer. No Brasil, elas são internalizadas pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS).

Na dúvida, começar pelo GRI atende o público mais amplo (clientes, comunidade, funcionários), e acrescentar depois as divulgações financeiras no padrão ISSB é mais simples do que o caminho inverso.

O que a CVM exige de companhia aberta

A Resolução CVM 193/2023 trouxe o relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade com base no ISSB. Com a Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026, a adoção passou a ser voluntária, no modelo “pratique ou explique”: a partir de 1º de janeiro de 2027, a companhia que não publicar o relatório deve informar os motivos por comunicado ao mercado, até a data de arquivamento das demonstrações financeiras anuais. Quem opta pelo relatório deve declarar aderência explícita e sem reservas às normas do CBPS e do ISSB e publicá-lo por no mínimo três exercícios seguidos. O texto consolidado também prevê asseguração por auditor independente registrado na CVM: limitada até o exercício de 2025 e razoável a partir dos exercícios iniciados em 2026.

Empresas fechadas não estão sujeitas a essa regra, mas costumam receber a mesma cobrança de clientes, bancos e investidores.

Faça a materialidade

Liste os temas possíveis, ouça clientes, equipe e fornecedores, e priorize. O relatório cobre os temas materiais, não tudo. Na prática, são três etapas:

  1. Lista longa: reúna temas a partir das Normas Setoriais do GRI, do relatório de concorrentes, dos questionários que a empresa já recebe e de referências como a ABNT PR 2030.
  2. Escuta: questionários, entrevistas ou oficinas com os grupos mais afetados, como clientes, empregados, fornecedores e comunidade.
  3. Priorização: pontue cada tema em gravidade e probabilidade do impacto (lente GRI) e em magnitude financeira (lente ISSB). Os temas abaixo do corte ficam documentados como avaliados e excluídos.

Materialidade não é exercício único: revise a lista a cada ciclo, porque operação, regulação e expectativas mudam.

Monte o esqueleto

Perfil da empresa, governança do tema, temas materiais com indicadores, metas com prazo e o que não foi atingido. A seção de metas não atingidas é a que dá credibilidade ao resto. Uma estrutura que funciona para um primeiro relatório:

  1. Mensagem da liderança curta, com compromissos concretos.
  2. Perfil: atividades, unidades, número de empregados, cadeia de valor.
  3. Governança: quem responde pela sustentabilidade, com que frequência o tema vai ao conselho ou à diretoria.
  4. Materialidade: método, partes ouvidas e lista final de temas.
  5. Um capítulo por tema material: indicador, método, resultado, comparação com o ano anterior e meta.
  6. Índice de conteúdo GRI (ou tabela de correspondência ISSB), que mostra onde está cada divulgação.

Passo a passo do primeiro ciclo

  1. Forme um grupo de trabalho. No mínimo alguém de finanças (para conferir números), alguém de operações (para coletar dados) e um patrocinador na diretoria (para aprovar metas).
  2. Defina o período e o ano-base. Normalmente o mesmo exercício das demonstrações financeiras.
  3. Organize a coleta antes de escrever. Planilha serve no primeiro ciclo, desde que cada célula tenha fonte, responsável e período. O inventário de emissões costuma ser o maior bloco de dados ambientais.
  4. Escreva a narrativa em torno dos dados. Parágrafo sobre valores da empresa não é divulgação.
  5. Revise com finanças e jurídico. Toda afirmação ambiental precisa de prova. Veja como evitar greenwashing.
  6. Decida sobre asseguração. Se houver exigência de investidor ou regulação, contrate auditor independente; a norma internacional de referência é a ISSA 5000, do IAASB.
  7. Publique e registre as lições. O que faltou de dado neste ciclo vira plano de coleta do próximo.

Um calendário realista

Para uma empresa que fecha o exercício em dezembro, um primeiro ciclo costuma caber em seis a oito meses:

Companhias abertas que adotam o relatório da CVM precisam encaixar esse cronograma nos prazos da própria resolução. Para as demais, publicar junto com as demonstrações financeiras ajuda a mostrar que sustentabilidade e finanças falam a mesma língua.

Exemplo: um indicador bem reportado

Em vez de “reduzimos significativamente nossas emissões”, um bom relatório traz: emissões de escopos 1 e 2 em tCO2e no ano, comparadas ao ano-base; fronteira (unidades incluídas e abordagem de consolidação); fatores de emissão usados e fonte; método de escopo 2 (localização e escolha de compra); variação percentual e o que explica a variação; meta para o próximo período. Cinco linhas de tabela fazem mais pela credibilidade do que cinco páginas de texto.

Erros comuns

Empresas com sede ou fábricas certificadas podem citar no relatório as certificações verdes de construção (LEED e EDGE), informando escopo e validade.

Quem busca uma validação externa além do relatório pode avaliar a certificação B Corp.

Indicadores de resíduos e reaproveitamento ficam mais fáceis de reportar com um programa de economia circular.

Perguntas frequentes

Preciso auditar o relatório?

Não obrigatoriamente no primeiro ano. Asseguração externa costuma ser exigida por investidor ou por regulação; para companhias abertas que adotam o relatório da CVM, a asseguração por auditor independente está prevista na própria resolução.

Qual o tamanho ideal?

O suficiente para cobrir os temas materiais com dado. Relatórios de 100 páginas sem número não impressionam mais ninguém.

Posso publicar só no site?

Pode. O importante é a rastreabilidade: cada número com fonte, método e período.

As normas GRI são pagas?

Não. O GRI disponibiliza as normas gratuitamente, em vários idiomas, no próprio site.

Empresa fechada pode usar o ISSB?

Pode. As normas IFRS S1 e S2 não se limitam a companhias abertas e ajudam quando a empresa busca crédito ou investidor.

Leia também: TCFD e ISSB no relatório de risco climático.

Leia também: o que é ESG e como aplicar.

Fontes primárias: Normas GRI: Normas Universais em vigor desde 1º de janeiro de 2023, em inglês (GRI, 2021); IFRS S1, requisitos gerais de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, em inglês (IFRS Foundation, 2023); Resolução CVM 193/2023, texto consolidado (CVM, 2026); Resolução CVM 244/2026 (CVM); ISSA 5000, requisitos gerais para trabalhos de asseguração de sustentabilidade, em inglês (IAASB, 2024); Autoavaliação ESG com base na ABNT PR 2030 (ABNT).

Quer isto por e-mail?

Ainda não existe newsletter. Deixe seu e-mail e você será avisado no dia em que existir, antes de qualquer outra pessoa.

Politica de Privacidade