O minuto
- A ISO/DIS 14060, proposta de padrão global para net zero, não atingiu o quórum de dois terços de aprovação exigido dos membros participantes para avançar à publicação final.
- O rascunho recebeu quase 5.000 comentários durante o período de consulta pública de 12 semanas, volume recorde para um padrão desse tipo na ISO.
- Reportagens indicaram que a oposição veio principalmente de países produtores de combustíveis fósseis, embora a ISO não divulgue votos individuais nem as razões declaradas.
Por que importa: Um padrão ISO universal para net zero daria a empresas, auditores e reguladores uma referência única para avaliar planos de transição. Sem ele, o mercado segue fragmentado entre frameworks voluntários (SBTi, ISSB S2, regulações nacionais), e organizações que já começaram a se alinhar ao rascunho enfrentam incerteza sobre se o trabalho preparatório será compatível com o texto final, quando quer que ele chegue.
O pano de fundo é o diagnóstico do PNUMA de que o mundo passará de 1,5°C, mas ainda pode voltar abaixo desse limite.
O que ainda não está decidido e o que precisa acontecer
A reprovação não encerra a ISO 14060. Pelas regras de procedimento da ISO, o comitê técnico pode revisar o rascunho e submetê-lo a uma segunda votação (estágio DIS ou FDIS, dependendo da extensão das alterações). O comitê agora precisa processar quase 5.000 comentários, separar objeções editoriais das substantivas e decidir se um texto revisado consegue satisfazer tanto os países que apoiaram quanto os que votaram contra. Se a oposição for estrutural (por exemplo, exigências sobre cronogramas de redução de combustíveis fósseis ou metas de escopo 3), a conciliação pode levar muitos meses. A ISO não publicou um cronograma revisado.
Uma segunda possibilidade é o comitê reduzir o escopo do padrão para contornar as provisões mais controversas, produzindo um documento que passe na votação mas tenha menor peso regulatório. Em qualquer cenário, organizações que estão construindo planos de transição net zero não têm uma referência ISO estável para usar como base, provavelmente até 2027 no mínimo.
Quem ganha e quem perde com o atraso
Os beneficiários mais evidentes são economias produtoras de combustíveis fósseis e as empresas sediadas nelas. Um padrão ISO vinculante com cronogramas explícitos de redução de emissões teria criado pressão em cadeias de suprimento e financiamento globais. Cada ano sem esse padrão é um ano em que exigências de planos de transição continuam voluntárias ou restritas a jurisdições específicas, reduzindo a pressão externa sobre setores de alta emissão.
Os perdedores mais claros são multinacionais que operam em várias jurisdições e esperavam que um padrão ISO único substituísse a colcha de retalhos de regras nacionais. Essas empresas agora enfrentam complexidade contínua de conformidade: a Diretiva Europeia de Due Diligence em Sustentabilidade Corporativa, o framework do UK Transition Plan Taskforce e exigências de bolsas de valores individuais demandam divulgações diferentes e seguem calendários diferentes. Um padrão ISO convergente teria simplificado esse cenário de forma considerável.
Consultorias e firmas de verificação também perdem tração. Várias já estavam construindo linhas de serviço em torno de avaliações de prontidão para a ISO 14060 e verificação por terceiros, antecipando demanda assim que o padrão fosse finalizado. Essa demanda agora está adiada.
O que muda para empresas que operam no Brasil
A ABNT, organismo nacional de normalização e membro da ISO pelo Brasil, participa do comitê técnico responsável pela ISO 14060. Quando um padrão ISO é publicado, a ABNT normalmente o adota como equivalente ABNT NBR ISO, que passa a ser referência para contratos, licitações e orientações regulatórias que citam normas internacionais. A reprovação atrasa toda essa cadeia de adoção.
Para empresas brasileiras sujeitas às exigências de divulgação climática da CVM ou em preparação para alinhamento com padrões do ISSB, o efeito prático é que ainda não existe referência no nível ISO contra a qual validar um plano de transição net zero. Empresas que reportam sob a Resolução CVM 193 (que referencia o ISSB) devem continuar usando ISSB S2 e critérios do SBTi para credibilidade de metas, sem a camada adicional de certificação ISO que era esperada.
O mercado regulado de carbono do Brasil, estabelecido pela Lei 15.042/2024, não depende diretamente da ISO 14060, mas participantes do mercado esperavam que o padrão funcionasse como sinal internacional de qualidade para planos de transição corporativos vinculados a compras de compensação. Sem ele, a verificação de credibilidade de planos de transição no mercado brasileiro segue regida por regras domésticas e frameworks voluntários, sem um piso globalmente harmonizado.
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