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Assassinatos de ativistas no Brasil sobem 116% em 2025

Read in English → Por · Atualizado em 30/09/2026, 22:18 · ⏱ leitura de 4 min
Vista aérea de área desmatada
Foto: Pok Rie / Pexels

O minuto

  • A Global Witness registrou 26 ativistas ambientais assassinados no Brasil em 2025, ante 12 em 2024, alta de 116%.
  • Entre as vítimas havia 11 pequenos agricultores e 7 indígenas; metade das mortes se concentrou nos estados de Rondônia e Pará.
  • No mundo, 124 defensores foram mortos em 2025; a América Latina respondeu por 105 (cerca de 85%), com Colômbia (39) e Brasil (26) somando 52% dos casos.

Por que importa: O salto na violência letal contra defensores ambientais no Brasil não ocorre de forma isolada. Rondônia e Pará são também os estados no centro da expansão pecuária, da extração ilegal de madeira e do garimpo, atividades diretamente conectadas a cadeias de commodities que abastecem mercados europeus, norte-americanos e asiáticos. Para empresas que compram carne, soja, madeira ou minérios da Amazônia brasileira, a escalada de violência contra comunidades locais é um risco operacional e regulatório que não pode mais ser tratado como ruído de fundo.

O que muda para empresas com fornecedores no Brasil

O Regulamento Europeu contra o Desmatamento (EUDR), cuja fase de aplicação começou no final de 2025, exige que importadores comprovem que as commodities adquiridas não contribuíram para desmatamento ou degradação florestal. Embora o texto do regulamento se concentre em mudança de uso do solo, o processo de devida diligência que ele impõe (incluindo dados de geolocalização e rastreabilidade de fornecedores) expõe empresas ao escrutínio sobre as condições sociais em torno da produção. Um fornecedor localizado em município onde defensores ambientais estão sendo assassinados representa um sinal de alerta que auditores, investidores e reguladores conseguem rastrear. Empresas incapazes de demonstrar ciência e resposta a esses riscos enfrentam exclusão do mercado europeu ou dano reputacional em ratings ESG.

Além do EUDR, instrumentos voluntários como as Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais e os Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos já estabelecem que companhias devem identificar e mitigar impactos adversos em direitos humanos vinculados a suas operações e cadeias de suprimentos. A concentração da violência nas fronteiras pecuárias e madeireiras significa que frigoríficos, tradings e empresas do agronegócio com compras no Pará e em Rondônia carregam a exposição mais direta. Investidores institucionais que aplicam filtros de direitos humanos a portfólios podem reprecificar esse risco.

O programa de proteção brasileiro e suas lacunas

O Brasil opera o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), iniciativa federal criada em 2004 e regulamentada pelo Decreto 9.937/2019, que deveria oferecer medidas protetivas a ativistas ameaçados, incluindo realocação, escolta policial e acompanhamento psicossocial. O programa é gerido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e funciona por meio de convênios com governos estaduais. Na prática, a cobertura é desigual. Nem todos os estados firmaram acordos de cooperação, e o programa historicamente sofre com restrições orçamentárias e lentidão nas respostas. O fato de a violência ter disparado em Rondônia e no Pará, estados com fronteiras ativas de desmatamento, indica que a arquitetura de proteção existente falha exatamente onde é mais necessária.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT), citada na fonte, mantém seu próprio registro anual de conflitos, que frequentemente apresenta números superiores aos de organizações internacionais porque inclui ameaças, tentativas de assassinato e outras formas de violência além das mortes confirmadas. Se o governo federal vai ampliar o orçamento ou o alcance operacional do PPDDH em resposta aos dados da Global Witness permanece indefinido, especialmente no contexto eleitoral atual. Qualquer reforma significativa exigiria não apenas mais recursos, mas também coordenação com forças de segurança estaduais que, em regiões de fronteira, muitas vezes mantêm vínculos com os próprios atores econômicos que impulsionam a violência.

Quem ganha e quem perde

Os perdedores imediatos são comunidades indígenas e pequenos agricultores na Amazônia, que enfrentam risco letal por defender suas terras. Mas o dano se estende. O agronegócio brasileiro como um todo perde credibilidade em mercados internacionais quando as estatísticas de violência escalam, mesmo entre produtores que operam de forma legal e sustentável. O posicionamento diplomático do país após a COP30, construído sobre uma narrativa de inclusão indígena e compromisso ambiental, é enfraquecido por dados que mostram defensores sendo mortos em ritmo acelerado.

Do outro lado, madeireiros ilegais, garimpeiros e grileiros se beneficiam do vácuo de proteção. Cada assassinato sem punição envia o sinal de que a resistência tem custo fatal, o que consolida o controle territorial informal. Concorrentes internacionais dos exportadores brasileiros de commodities, particularmente nos setores de carne e soja, também podem se beneficiar indiretamente à medida que compradores buscam alternativas de fornecimento de menor risco em resposta ao endurecimento das exigências de devida diligência.

via Mongabay Brasil

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