O minuto
- Só 12% das empresas apoiaram a correspondência horária na consulta do GHG Protocol sobre o Escopo 2, e 19% apoiaram a exigência de entregabilidade, segundo os resultados divulgados pela própria organização.
- O Independent Standard Board agora propõe dois métodos de mercado: o Método 1, com correspondência horária e entregabilidade, e o Método 2, que mantém as regras atuais até uma data que ninguém definiu.
- A próxima consulta está marcada para o segundo trimestre de 2027. O padrão corporativo conjunto GHG Protocol-ISO deve sair no quarto trimestre de 2028.
Por que importa: O Escopo 2 pelo método de mercado é o número que aparece nas metas de net zero, porque permite abater as emissões cobertas por certificados de energia renovável e contratos de compra de energia. Correspondência horária e entregabilidade obrigariam esses certificados a bater com a hora e o lugar em que a eletricidade foi de fato consumida. Em vez disso, o GHG Protocol criou um segundo método, mais frouxo, e se recusou a dizer quando ele vence. Isso mantém o mercado atual de certificados vivo por mais alguns ciclos de relato.
O Brasil tem mais em jogo do que a maioria. As companhias abertas daqui estão prestes a reportar Escopo 2 sob uma norma que remete direto ao GHG Protocol. E o país é um emissor relevante de I-RECs (International Renewable Energy Certificates), exatamente o instrumento que as regras duras apertariam.
O que ficou decidido e o que ainda não tem data
O ESG Today noticiou a atualização. Três pontos estão fechados. O Método 1 carrega as regras estritas. O Método 2 mantém a orientação de 2015. As empresas terão de declarar qual dos dois usaram. O resto está aberto, e o que está aberto é a notícia. O texto do conselho diz que o Método 1 passa a ser obrigatório depois de uma data “a ser determinada”, e apenas “se houver dados que atendam aos critérios de qualidade”. Ninguém escreveu a data. Ninguém escreveu os critérios.
O próximo passo formal é a consulta do segundo trimestre de 2027, que também vai cobrir Escopo 1, Escopo 3 e instrumentos de mercado dentro do padrão conjunto com a ISO, previsto para o quarto trimestre de 2028. Faça a conta de trás para a frente: uma empresa brasileira só enfrentaria exigência horária vinculante depois de 2028. Na prática, mais tarde, porque padrão novo costuma vir com período de transição.
Os números da consulta explicam o recuo. O resumo do próprio GHG Protocol diz que 82% das empresas declararam apoio baixo ou nenhum à correspondência horária, e 71% disseram o mesmo sobre a entregabilidade. 87% temiam que a regra horária afastasse empresas dos mercados voluntários de energia limpa, e a mesma fatia, 87%, afirmou que fronteiras de mercado mais estreitas desviariam investimento das redes onde a renovável corta mais carbono. Esses dados saíram do resumo da consulta da própria organização, não de release de associação setorial, e por isso o conselho não tinha como fingir que não viu.
Minha leitura: o conselho fez a única coisa possível sem perder as empresas de que precisa. Mas data de validade em branco não é plano de transição. É adiamento.
O Brasil já tem dado horário. Não tem fronteira de mercado definida
As duas propostas chegam de forma bem diferente aqui. Comece pela correspondência horária. O mercado atacadista brasileiro está mais adiantado que a maioria. A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) liquida o mercado livre com preço horário, e os consumidores livres são medidos nessa resolução. O peso de dados que empresas europeias e americanas vivem citando é menor para uma fábrica que já compra no mercado livre. A matriz também ajuda. Hidrelétricas e os parques eólicos do Nordeste geram à noite, quando a solar não gera, então quem combina fontes cobre muito mais horas do que quem depende só de certificado solar.
A entregabilidade é a difícil.
O Sistema Interligado Nacional (SIN) é uma rede só, mas é precificado e operado em submercados regionais: Norte, Nordeste, Sudeste/Centro-Oeste e Sul. O texto do GHG Protocol fala em “mesmo mercado de eletricidade” e nunca diz o que isso significa para um país montado assim. Se a fronteira for o SIN inteiro, um data center em São Paulo continua alegando certificado eólico da Bahia. Se for o submercado, a alegação morre.
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A atualização não resolve nada nesse ponto, e é a única pergunta que os respondentes brasileiros deveriam levar à consulta de 2027. Quem esperar o GHG Protocol reparar sozinho nos submercados brasileiros vai esperar muito.
Há ainda a camada doméstica. O Programa Brasileiro GHG Protocol, conduzido pelo centro de sustentabilidade da FGV, adota os métodos globais, então o Registro Público de Emissões seguirá a regra de Escopo 2 que for finalizada lá fora. Para companhias abertas, a Resolução CVM 193 torna obrigatória a divulgação conforme IFRS S1 e S2 nos exercícios iniciados em 2026.
A IFRS S2 exige o Escopo 2 pelo método de localização, que no Brasil é calculado com o fator de emissão do SIN publicado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e pede informação adicional sobre instrumentos contratuais. O número de localização não é afetado pela decisão. O número de mercado, o que aparece na maioria dos compromissos de net zero, é o que está em jogo.
Uma observação sobre o que falta. Esta matéria não traz o volume atual de I-RECs emitidos no Brasil nem a parcela do consumo corporativo comprada no mercado livre. Esses números não estão no material de origem e devem vir da CCEE e do emissor local de I-REC, não de chute.
O que isso significa para empresas e geradores brasileiros
Para uma empresa brasileira que reporta Escopo 2 hoje, nada muda no próximo inventário. O Método 2 segue válido. A correspondência anual de I-RECs com fronteira nacional segue aceita. A mudança prática é a divulgação. A empresa terá de nomear o método, e quem audita relatório IFRS S2 vai perguntar por que escolheu o Método 2 quando o Método 1 é a orientação recomendada. Quem já consegue mostrar cobertura horária para parte da carga tem resposta fácil. Quem não consegue vai se explicar todo ano até a regra mudar.
Entre geradores, há quem ganhe e quem perca. Operadores de hidrelétricas e produtores eólicos do Nordeste podem vender certificados que casam com consumo noturno, e ganhariam poder de preço sob o Método 1. Vendedores de certificado só solar veem o mercado para a geração diurna encolher se os compradores migrarem para alegações horárias. Multinacionais que compram certificado de forma centralizada para subsidiárias brasileiras são o grupo mais exposto a uma fronteira estreita de entregabilidade e, não por acaso, o mais inclinado a se agarrar ao Método 2 enquanto ele existir.
A decisão dos próximos dois anos não é qual certificado comprar. É se vale investir em medição horária e em estrutura de contrato antes da consulta de 2027, para chegar lá com dado próprio em vez de objeção. Objeção já venceu esta rodada. Dado é o que vai decidir a próxima.
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