O minuto
- Pelo menos sete dos nove estados da Amazônia Legal serão governados por políticos alinhados a Flávio Bolsonaro após o primeiro turno, incluindo Otaviano Pivetta (Republicanos, Mato Grosso), Dr. Daniel (Podemos, Pará), Marcos Rogério (PL, Rondônia) e Arthur Henrique (PL, Roraima).
- O Amazonas é o único estado amazônico em disputa no qual uma chapa de oposição ao bolsonarismo tem chance real: Omar Aziz (PSD) liderou o primeiro turno com 40,63% dos votos válidos contra 24,49% de Professora Maria do Carmo (PL).
- Mesmo Aziz, apesar do apoio de Lula, votou a favor do projeto apelidado de “PL da Devastação”, que flexibiliza regras de licenciamento ambiental, e defende a exploração de petróleo na Foz do Amazonas e a pavimentação da BR-319.
Por que importa: O mapa político da Amazônia está se reconfigurando em favor de lideranças que historicamente priorizaram o enfraquecimento da fiscalização ambiental. Governos estaduais controlam órgãos de licenciamento, polícia ambiental e planejamento de uso do solo, o que significa que a política federal sozinha não consegue proteger o bioma se os governadores optarem por não cooperar. A mudança ocorre em um momento em que a credibilidade climática do Brasil depende de mostrar que as reduções de desmatamento obtidas desde 2023 são duráveis.
O que muda para empresas brasileiras e exportadoras
Para empresas com cadeias de suprimento que tocam a Amazônia, o realinhamento político traz risco regulatório concreto. O Regulamento Europeu contra o Desmatamento (EUDR), que exige prova de que commodities não foram produzidas em áreas desmatadas após dezembro de 2020, depende em parte de fiscalização local eficiente para manter a rastreabilidade. Se as secretarias estaduais de meio ambiente (SEMAs) forem esvaziadas ou reestruturadas sob novos governadores, a infraestrutura de verificação da qual as empresas dependem (como o Cadastro Ambiental Rural, o CAR, e sistemas estaduais de monitoramento) pode se enfraquecer. Exportadores de soja, carne, madeira e minérios desses estados podem enfrentar escrutínio maior de importadores europeus e custos de compliance mais altos para preencher lacunas deixadas pela redução da fiscalização estadual.
No arcabouço regulatório brasileiro, o CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) estabelece padrões federais, mas o licenciamento ambiental para a maioria das atividades de uso do solo é executado no nível estadual. Governadores nomeiam os titulares dessas secretarias e definem seus orçamentos. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), vários estados amazônicos registraram quedas acentuadas na emissão de autos de infração e operações de fiscalização. Segundo Adriana Ramos, diretora-executiva do Instituto Socioambiental (ISA), a nova configuração política traz o risco de repetir “a expansão de atividades ilícitas, a presença do crime organizado e o descontrole na exploração de recursos naturais” daquele período.
O que ainda não está decidido e quem perde
Vários desfechos críticos permanecem abertos. O segundo turno presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) vai determinar se órgãos federais como IBAMA e ICMBio mantêm a postura atual de fiscalização ou enfrentam novo desmonte. Os segundos turnos estaduais no Acre (entre duas candidatas conservadoras, Mailza Assis do PP e Alan Rick do Republicanos), no Tocantins (Professora Dorinha do União Brasil contra Vicentinho Júnior do PSDB) e no Amazonas definirão se o bloco de direita se estende a oito ou a todos os nove estados. Mesmo no Maranhão, onde o governador eleito Eduardo Braide (PSD) manteve neutralidade, a dinâmica de coalizões pós-eleitorais pode alterar o equilíbrio.
Os grupos mais diretamente afetados, como apontou o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, são comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Essas populações dependem da aplicação de proteções territoriais administradas nos níveis federal e estadual. Governadores que priorizam a abertura de territórios protegidos à exploração econômica, sobretudo mineração e agronegócio, criam pressão direta sobre terras indígenas demarcadas e unidades de conservação. Do outro lado, interesses do agronegócio e da mineração em estados como Mato Grosso e Pará tendem a se beneficiar de prazos de licenciamento mais curtos e ações de fiscalização reduzidas.
Para investidores com foco em ESG, a virada política complica a tese de que a governança ambiental brasileira se estabilizou. A exposição de portfólios a commodities ligadas à Amazônia agora carrega risco político elevado independentemente da direção da política federal, porque retrocessos estaduais podem minar metas de desmatamento mesmo que Brasília mantenha o curso atual.
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