O minuto
- A Financial Conduct Authority (FCA) abandonou o plano de tornar obrigatorio o UK Sustainability Reporting Standard S2 para empresas listadas, mantendo o modelo “cumpra ou explique” ja existente.
- Uma revisao da FCA constatou que 92% das empresas do FTSE 350 divulgaram riscos climaticos em seus relatorios anuais de 2025 sob o regime voluntario atual.
- A decisao segue recuos semelhantes na UE (reducao do escopo do marco de relatorios de sustentabilidade corporativa) e nos EUA (abandono de regras federais de divulgacao climatica pelo governo Trump).
Por que importa: Tres dos maiores mercados de capitais do mundo, Reino Unido, UE e EUA, estao recuando simultaneamente de exigencias mais rigidas de divulgacao climatica. Esse movimento coordenado altera a referencia contra a qual todas as demais jurisdicoes, inclusive o Brasil, precisam calibrar suas proprias regras. Para empresas que captam recursos ou mantem listagem em mais de um pais, a questao pratica deixou de ser se divulgar e passou a ser quanta consistencia os reguladores de fato vao exigir.
O que muda para empresas brasileiras
A CVM (Comissao de Valores Mobiliarios) adotou a Resolucao 193 em 2023, que obriga companhias abertas a publicar relatorios de sustentabilidade alinhados aos padroes ISSB (IFRS S1 e IFRS S2) a partir do exercicio de 2026, com asseguracao obrigatoria prevista em fases posteriores. O padrao UK SRS S2 que a FCA decidiu nao tornar obrigatorio e justamente a versao britanica do mesmo ISSB S2. Em termos praticos, o Brasil esta caminhando para tornar mandatorio exatamente o arcabouco que o Reino Unido acaba de manter como voluntario.
Para empresas brasileiras com dupla listagem ou investidores sediados no Reino Unido, a decisao da FCA cria uma assimetria: elas podem enfrentar obrigacoes de divulgacao mais rigidas no Brasil do que seus pares britanicos enfrentam em Londres. Isso altera o calculo de custo de conformidade. Executivos brasileiros que esperavam que a tendencia global suavizasse o cronograma da CVM agora tem menos argumentos, porque a Resolucao 193 foi desenhada justamente para alinhar o Brasil ao padrao ISSB, e o regulador nao sinalizou qualquer recuo.
Por outro lado, empresas brasileiras que disputam capital estrangeiro podem apresentar a conformidade integral com o ISSB como diferencial competitivo, ja que pares no Reino Unido e na UE podem divulgar menos sob regimes mais flexiveis. Se essa vantagem se materializa depende de como os investidores efetivamente precificam a diferenca na qualidade dos dados.
Quem ganha e quem perde
Os vencedores imediatos sao empresas britanicas de menor porte, especialmente as representadas pela Quoted Companies Alliance, que pressionou contra a adocao obrigatoria. Elas evitam os custos de implementacao do SRS S2 completo, descritos por respondentes da consulta da FCA como desproporcionais para emissores de media e pequena capitalizacao. Londres como praca de listagem tambem se beneficia no sentido estrito: empresas avaliando onde listar verao regras de divulgacao mais leves em comparacao com jurisdicoes que exigem conformidade com o ISSB.
Os perdedores sao investidores institucionais e credores que precisam de dados climaticos padronizados e comparaveis para precificar risco de transicao em seus portfolios. Ian Bhullar, da UK Finance, reconheceu esse dilema diretamente: menor carga de relatorios para empresas significa menos informacao para quem avalia riscos de sustentabilidade. Carmen Nuzzo, do TPI Global Climate Transition Centre na London School of Economics, apontou o problema de durabilidade: a divulgacao voluntaria pode estar em 92% hoje, mas sem mandato nao ha garantia estrutural de que permaneca nesse patamar se as condicoes de mercado ou as prioridades da gestao mudarem.
Provedores de indices e dados tambem perdem influencia. Quando a divulgacao e obrigatoria, e possivel construir bases de dados comparaveis; quando e voluntaria, lacunas e inconsistencias se multiplicam, elevando o custo de produzir ratings ESG confiaveis.
O que ainda nao esta decidido
A FCA nao fechou a porta de forma permanente. O regulador vai monitorar se a taxa de divulgacao de 92% entre empresas do FTSE 350 se mantem e se a qualidade e a comparabilidade dos relatorios melhoram sob o regime voluntario. Se qualquer uma dessas metricas se deteriorar de forma relevante, o argumento para revisitar a adocao obrigatoria se fortalece. Nenhum cronograma para essa revisao foi publicado.
No cenario global, os padroes ISSB continuam como referencia, e jurisdicoes como Brasil, Japao e outras seguem em direcao a adocao. A pergunta em aberto e se o recuo britanico se torna um equilibrio estavel ou uma pausa temporaria antes da proxima rodada de regulamentacao, provavelmente desencadeada por um evento financeiro ligado ao clima que exponha lacunas nos relatorios voluntarios.
Por ora, o sinal e claro: argumentos de competitividade superaram argumentos de transparencia em Londres, Bruxelas e Washington ao mesmo tempo. O mercado vai testar se a conformidade voluntaria consegue entregar o que regras obrigatorias foram desenhadas para garantir.
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