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Google e Constellation fecham acordo nuclear de US$ 4,3 bilhões para adicionar 890 MW à rede dos EUA

Read in English → Por · Atualizado em 07/10/2026, 19:30 · ⏱ leitura de 4 min

O minuto

  • Google e Constellation Energy assinaram um PPA de 20 anos que viabiliza mais de US$ 4,3 bilhões em investimentos para adicionar 890 MW de capacidade nuclear por meio de uprates (modernizações) em seis usinas em operação em Illinois, Pensilvânia e Nova Jersey.
  • As empresas também anunciaram um contrato separado de fornecimento de energia de 15 anos cobrindo 2.700 MW na frota da PJM, além de uma aliança tecnológica de 5 anos para implantar Google Cloud e Gemini Enterprise nas operações da Constellation.
  • As ações da Constellation subiram mais de 14% na manhã de terça-feira após o anúncio, o mais recente de uma série de acordos nucleares com grandes empresas de tecnologia, incluindo um contrato similar com a Amazon divulgado na semana anterior.

Por que importa: O acordo consolida um modelo em que gigantes de tecnologia financiam ganhos de capacidade em usinas nucleares existentes em vez de esperar por novas construções, evitando filas de licenciamento e interconexão que duram anos. Para a rede PJM, que atende 67 milhões de pessoas em 13 estados, 890 MW de geração de base firme e livre de carbono são relevantes. O relatório ambiental de 2025 do Google mostrou que sua demanda de eletricidade cresceu 37% no ano, mas as emissões diretas (Escopos 1 e 2) caíram 2%, um desacoplamento atribuído às compras de energia limpa em larga escala. A tensão, porém, permanece: emissões da cadeia de valor continuaram subindo, e o Google reconheceu que sua meta de energia 24/7 livre de carbono está ficando mais difícil conforme a infraestrutura de IA cresce mais rápido do que a descarbonização da rede.

O que o modelo de uprate nuclear significa para o Brasil

O Brasil possui duas usinas nucleares em operação comercial (Angra 1 e Angra 2) e Angra 3 em construção. A lógica de uprate, extrair mais megawatts de plantas já licenciadas, é tecnicamente aplicável a Angra 1 e Angra 2, mas o contexto institucional difere. No Brasil, a geração nuclear é operada pela Eletronuclear (subsidiária da Eletrobras) sob regulação da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), não por um mercado competitivo de múltiplos operadores privados como nos EUA. PPAs de 20 anos entre uma big tech e uma geradora nuclear não existem no arcabouço regulatório brasileiro atual. O mercado livre de energia no Brasil permite contratos bilaterais, mas a energia nuclear de Angra é majoritariamente destinada ao mercado regulado via contratos com distribuidoras. Para que um modelo semelhante surgisse aqui, seria necessário que a Eletronuclear ou eventual operador privado pudesse ofertar energia nuclear no mercado livre com contratos de longo prazo, algo que depende de mudanças regulatórias na comercialização de energia nuclear e, possivelmente, da abertura do setor a investidores privados.

Quanto à capacidade instalada, Angra 1 tem 640 MW e Angra 2 tem 1.350 MW. Os 890 MW que o acordo Google-Constellation pretende adicionar por uprate representam, para efeito de comparação, mais do que toda a capacidade de Angra 1. A diferença é que nos EUA essa capacidade virá de modernizações em seis usinas já existentes, enquanto no Brasil a expansão nuclear depende da conclusão de Angra 3 (que adicionará cerca de 1.405 MW, segundo dados oficiais da Eletronuclear). Não há programa brasileiro equivalente de uprate nuclear em andamento.

Quem ganha e quem perde

Os vencedores imediatos são operadores nucleares com frotas envelhecidas, mas ainda licenciáveis. A Constellation, maior operadora nuclear dos EUA, agora conta com contratos de longo prazo que reduzem o risco de bilhões em investimento. O Google obtém elétrons firmes e livres de carbono que pode contabilizar em suas metas de sustentabilidade sem esperar por novas usinas. Trabalhadores sindicalizados nos seis locais de usinas se beneficiam das obras de modernização.

Os perdedores são menos evidentes, mas reais. Desenvolvedores de projetos renováveis com armazenamento que competem pela mesma capacidade de interconexão e pelos mesmos PPAs corporativos na PJM enfrentam um produto concorrente (uprates nucleares) que oferece geração 24 horas sem intermitência. Geradores merchant sem contratos de longo prazo podem ver sua posição competitiva deteriorar à medida que usinas nucleares modernizadas injetam mais energia de base no mercado, potencialmente comprimindo preços no atacado da PJM em horários fora de pico.

O que ainda não está decidido

O framework estratégico anunciado pelas empresas para avaliar nova geração limpa, armazenamento e resposta à demanda é intencionalmente vago. Menciona identificar “projetos potenciais, estruturas comerciais e caminhos regulatórios”, mas não se compromete com nada além de estudos. Se esse framework levará a novas usinas nucleares, reatores avançados ou armazenamento em larga escala depende de resultados que nenhuma das duas empresas controla: extensão de créditos fiscais federais de produção, prazos de licenciamento da NRC para novos designs e a própria reforma do mercado de capacidade da PJM. A aliança tecnológica de 5 anos com Google Cloud e Gemini nas operações da Constellation também tem entregas em aberto. Até que a construção dos uprates comece e os megawatts cheguem à rede, os 890 MW permanecem como meta contratual, não fato operacional.

via ESG Today

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