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Interior preservado da Amazonia aquece mais de 3°C, e isso muda o mapa de risco climatico para empresas brasileiras

Read in English → Por Julia Santos · Atualizado em 14/09/2026, 15:00 · ⏱ leitura de 4 min
O minuto
  • A temperatura maxima subiu mais de 3°C em uma area preservada de mais de 700 mil km² no centro-norte da Amazonia, distante do arco do desmatamento.
  • A regiao enfrenta aquecimento acelerado combinado com deficit hidrico, indicando estresse climatico nao relacionado ao desmatamento local.
  • Em paralelo, dados da UNICEF mostraram que mais de 171 milhoes de estudantes tiveram aulas interrompidas por eventos climaticos em 2025.

Por que importa: Ate agora, a narrativa dominante associava o aquecimento da Amazonia quase exclusivamente ao desmatamento ao longo do arco sul e leste. Esse dado muda o quadro: mesmo floresta bem preservada no coracao do bioma esta aquecendo rapido. Isso significa que modelos de risco climatico que usam proximidade do desmatamento como variavel principal estao subestimando a exposicao, e qualquer empresa, seguradora ou investidor que dependa desses modelos precisa revisar premissas.

O que muda para o risco climatico corporativo no Brasil

Empresas brasileiras com cadeias de suprimento que tocam a Amazonia, do agronegocio a cosmeticos e energia, costumam mapear risco climatico fisico em funcao das fronteiras de desmatamento. Um bloco preservado de 700 mil km² aquecendo acima de 3°C forca uma recalibracao. Companhias que reportam sob a Resolucao CVM 193/2023 (que introduz divulgacoes climaticas alinhadas ao ISSB para empresas de capital aberto) precisarao considerar que mesmo zonas de fornecimento “de baixo risco” dentro de floresta preservada carregam risco fisico material. Seguradoras precificando apolices agricolas ou de infraestrutura nos estados do Amazonas e do Para enfrentam a mesma lacuna: dados historicos de sinistro dessas zonas interiores podem nao ser mais um guia confiavel.

Para empresas no mercado voluntario de carbono, as implicacoes sao diretas. Projetos REDD+ e programas de creditacao jurisdicional no centro-norte da Amazonia comercializam permanencia em parte com base no argumento de que a floresta, por estar longe da fronteira de desmatamento, enfrenta menor ameaca. Aquecimento acelerado e deficit hidrico em areas preservadas introduzem um vetor de perda de biomassa que nao e desmatamento (estresse hidrico, maior suscetibilidade a fogo, mortalidade de arvores) e que a maioria dos documentos de projeto nao modela. Compradores de creditos dessas areas devem perguntar se as premissas de linha de base e de buffer pool ainda se sustentam.

A lacuna regulatoria: nenhum mecanismo brasileiro trata do aquecimento no interior da Amazonia

O principal instrumento brasileiro de controle do desmatamento, o PPCDAm (Plano de Acao para Prevencao e Controle do Desmatamento na Amazonia Legal), e o mais recente PPCerrado focam na reducao do corte de vegetacao. O Plano Nacional de Adaptacao (PNA), publicado em 2016 e ainda sem atualizacao formal, reconhece a vulnerabilidade da Amazonia, mas nao estabelece gatilhos ou protocolos especificos para aquecimento em areas preservadas. Nao existe, ate o momento, nenhum programa federal que monitore ou responda a anomalias de temperatura em zonas amazônicas nao desmatadas como categoria de politica distinta.

O Fundo Clima, recentemente recapitalizado com desembolsos planejados acima de R$ 10 bilhoes, financia projetos de mitigacao e adaptacao, mas seus criterios de alocacao priorizam transicao energetica, resiliencia urbana e reducao do desmatamento. O estresse termico no interior da Amazonia nao se encaixa bem em nenhuma linha de financiamento existente. Essa e uma lacuna que o Ministerio do Meio Ambiente e Mudanca do Clima (MMA) e o Ministerio da Ciencia, Tecnologia e Inovacao (MCTI), que supervisiona os sistemas de monitoramento do INPE, precisariam enderecar conjuntamente. O que ainda nao esta decidido e se a proxima versao do PNA, cuja atualizacao e esperada no governo Lula, vai incorporar limiares climaticos para o interior do bioma como gatilhos de acao adaptativa, ou se continuara tratando o desmatamento como alavanca de politica quase exclusiva para a Amazonia.

Quem ganha e quem perde

Empresas e municipios que se posicionavam como “seguros” por estarem dentro de floresta preservada, e nao na fronteira de desmatamento, perdem um argumento-chave. Desenvolvedores de projetos de carbono no centro-norte da Amazonia enfrentam diligencia mais rigorosa por parte de compradores de creditos. Do outro lado, empresas de sensoriamento remoto e analitica climatica ganham relevancia: cresce a demanda por monitoramento granular de temperatura e deficit hidrico no interior do bioma, que va alem dos alertas de desmatamento. Instituicoes de pesquisa como o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia) e o INPE ganham um argumento mais forte para financiamento, ja que seus dados se tornam essenciais para reprecificar o risco em toda a regiao.

via ClimaInfo

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