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Glossário

O que são escopos 1, 2 e 3

Read in English → Por · Atualizado em 12/10/2026, 20:24 · ⏱ leitura de 5 min
Linhas de transmissão ao pôr do sol
Foto: Andy Lee / Pexels

Definição

Escopos 1, 2 e 3 são as três categorias criadas pelo GHG Protocol para classificar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de uma organização conforme a origem e o grau de controle que ela exerce sobre cada fonte. A lógica é simples: o escopo 1 reúne as emissões diretas, o escopo 2 cobre a energia comprada e o escopo 3 abrange toda a cadeia de valor. Essa divisão permite que a empresa saiba onde sua pegada de carbono realmente se concentra e, a partir disso, defina metas de redução com base em dados, não em suposições.

Como funciona na prática

Escopo 1: emissões diretas

São os gases emitidos por fontes que pertencem à empresa ou estão sob seu controle operacional. Exemplos típicos: a queima de diesel na frota própria, o gás natural consumido em caldeiras industriais, o funcionamento de geradores e as emissões fugitivas de equipamentos de refrigeração. Se a empresa opera o ativo que gera o gás, a emissão é escopo 1.

Escopo 2: emissões indiretas de energia

Cobrem os gases associados à geração da energia elétrica (ou térmica, ou vapor) que a empresa compra de terceiros. A empresa não queima combustível diretamente, mas sua demanda por eletricidade causa emissões na usina geradora. O GHG Protocol orienta que o escopo 2 seja reportado por duas abordagens: a baseada em localização (que usa o fator de emissão médio da rede elétrica regional) e a baseada em mercado (que considera contratos de energia renovável, certificados de energia ou tarifas específicas do fornecedor).

Escopo 3: outras emissões indiretas

É a categoria mais ampla. O GHG Protocol Corporate Value Chain Standard divide o escopo 3 em quinze categorias, que vão desde a extração de matérias-primas compradas pela empresa até o uso final e o descarte do produto vendido. Algumas das categorias mais relevantes para a maioria dos setores incluem:

Para muitos setores de serviço e varejo, o escopo 3 representa a maior parte da pegada total de carbono. Isso acontece porque essas empresas não operam grandes plantas industriais (o que reduziria o peso do escopo 1), mas dependem de cadeias extensas de fornecimento, logística e consumo.

Exemplo concreto

Uma rede de supermercados possui caminhões próprios para parte das entregas: o diesel queimado nesses veículos é escopo 1. A eletricidade que mantém as lojas iluminadas e os refrigeradores funcionando é escopo 2. Já o transporte feito por transportadoras contratadas, a produção dos alimentos nas fazendas fornecedoras, as embalagens fabricadas por terceiros e o descarte dos produtos pelos consumidores entram no escopo 3. Nesse tipo de operação, o escopo 3 costuma ser várias vezes maior que a soma dos escopos 1 e 2.

Como se aplica no Brasil

No Brasil, o Programa Brasileiro GHG Protocol, coordenado pela FGVces (Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas), é a principal plataforma para elaboração e publicação de inventários corporativos de emissões. O programa adota a mesma estrutura de escopos do GHG Protocol internacional e publica fatores de emissão adaptados à realidade brasileira, como o fator médio de emissão do Sistema Interligado Nacional (SIN), calculado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Esse fator é essencial para o cálculo do escopo 2, já que a matriz elétrica brasileira, predominantemente hidrelétrica, apresenta um perfil de emissões diferente de países que dependem de termelétricas a carvão ou gás.

Empresas que publicam seus inventários pelo Programa Brasileiro GHG Protocol recebem classificação em categorias (como ouro, prata e bronze), conforme o nível de completude e verificação do inventário. O reporte do escopo 3 ainda não é obrigatório em todas as categorias, mas tem se tornado cada vez mais esperado por investidores e agências de rating ESG.

Além disso, a resolução CVM 193/2023, que permite a adoção voluntária de relatórios de sustentabilidade com base nas normas do ISSB (International Sustainability Standards Board) (a obrigatoriedade foi revogada pela Resolução CVM 244, de maio de 2026, e a partir de 2027 a companhia que não publicar o relatório deve justificar a decisão), reforça a necessidade de que companhias abertas reportem emissões nos três escopos, seguindo a estrutura do GHG Protocol.

O erro mais comum

O equívoco mais frequente é tratar o escopo 2 como se dependesse apenas de saber quanto a empresa paga de conta de luz. Na prática, o cálculo exige escolher entre as abordagens de localização e de mercado, e cada uma produz resultados diferentes. Uma empresa que compra energia de fonte renovável com certificação pode reportar escopo 2 igual a zero na abordagem de mercado, mas ainda apresentar emissões relevantes na abordagem de localização, porque o fator de emissão médio da rede inclui fontes fósseis. Publicar apenas uma das abordagens sem explicar a escolha distorce a comparação entre empresas.

Outro erro recorrente é ignorar o escopo 3 sob o argumento de que “não temos controle sobre os fornecedores”. O fato de a empresa não controlar diretamente a fonte emissora não elimina a emissão. O GHG Protocol reconhece que o escopo 3 envolve maior incerteza nos dados, mas orienta que a empresa comece pelos itens mais relevantes (análise de materialidade das categorias) e refine a mensuração ao longo do tempo. Omitir o escopo 3 do inventário equivale a medir a pegada de carbono olhando apenas para uma fração da operação real.

Referência normativa

A estrutura de escopos foi estabelecida pelo GHG Protocol Corporate Accounting and Reporting Standard, publicado pelo World Resources Institute (WRI) e pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). O detalhamento do escopo 3 está no GHG Protocol Corporate Value Chain (Scope 3) Accounting and Reporting Standard. Ambos os documentos são de acesso público no site do GHG Protocol.

Fontes primárias: GHG Protocol Corporate Standard, edição revisada (WRI/WBCSD, 2004, em inglês); GHG Protocol Scope 2 Guidance (WRI/WBCSD, 2015, em inglês); GHG Protocol Corporate Value Chain (Scope 3) Standard (WRI/WBCSD, 2011, em inglês); Fatores de emissão do Sistema Interligado Nacional (MCTI, 2026); Resolução CVM 193/2023, relatório de sustentabilidade com base no ISSB, com alterações (CVM, 2023-2026).

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