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Emissões do Brasil caem pelo terceiro ano, mas só o uso da terra fez a conta

Read in English → Por · Atualizado em 22/10/2026, 15:00 · ⏱ leitura de 5 min

O minuto

  • As emissões brutas de gases de efeito estufa do Brasil caíram 6% em 2025, para 2,06 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, o menor nível em oito anos, segundo o Seeg, sistema de estimativas do Observatório do Clima.
  • O Seeg registra emissões líquidas de 1,41 bilhão de toneladas após 650 milhões de toneladas em remoções, e queda acumulada de 26% nas emissões brutas em três anos seguidos de redução (-7,5% em 2023, -12,7% em 2024, -6% em 2025).
  • Segundo o Seeg, 39% das emissões brutas vêm da mudança de uso do solo, 30% da agropecuária, 21% da energia, 5% dos resíduos e 5% dos processos industriais. Fora do uso da terra, os setores ficaram estáveis ou subiram: resíduos +3,6%, energia +1,2%, geração de eletricidade +6%.

Por que importa: Três quedas seguidas parecem tendência. A divisão do Seeg mostra outra coisa: a queda inteira se apoia numa única fonte, o desmatamento mais lento. Os setores em que a maioria das empresas brasileiras atua (energia, transporte, resíduos, indústria) não acompanharam, e são justamente os que os inventários corporativos e qualquer teto futuro de emissões vão medir diretamente.

Um setor puxou a queda, os outros ficaram parados

O Capital Reset divulgou os números do Seeg no dia da apresentação, com a queda de 6% na manchete. A manchete é a parte menos interessante. A mudança de uso do solo responde por 39% das emissões brutas, então os outros 61% vêm de setores que o Seeg mostra estáveis ou em alta. Se o desmatamento tivesse ficado parado em 2025, o total nacional não teria caído. Nenhum outro setor puxava o número para baixo.

As remoções dependem do mesmo fator. As 650 milhões de toneladas removidas, no cálculo do Seeg, vêm do crescimento de vegetação secundária e das áreas protegidas, terras indígenas e unidades de conservação. Tanto o corte de emissões quanto as remoções estão no setor de florestas e uso da terra, e o resultado líquido de 1,41 bilhão de toneladas se move, portanto, com uma única área de política pública.

O coordenador do Seeg, David Tsai, do Iema, descreveu os últimos três anos como a reversão de mais de uma década de alta, e a fonte lembra que entre 2019 e 2022 o desmatamento subiu de forma expressiva. O ponto que merece atenção é este: uma reversão sustentada por fiscalização pode ser desfeita na próxima mudança de fiscalização.

O que ninguém sabe ainda é se energia, resíduos e agropecuária vão começar a cair. O Seeg liga a alta de 6% nas emissões da geração elétrica ao acionamento de termelétricas a gás, e o aumento em resíduos ao crescimento populacional, aos aterros, lixões e ao tratamento de efluentes. Nada disso é pontual. A fonte não diz se 2026 repete o quadro, e qualquer projeção feita em cima desses dados seria palpite.

Que regras brasileiras ficam mais perto desses números

O Seeg é uma estimativa nacional feita por uma rede de organizações da sociedade civil. Não é instrumento de conformidade e não atribui emissões a empresas. Os mecanismos brasileiros mais próximos operam em outro nível. O Programa Brasileiro GHG Protocol permite que empresas publiquem inventários voluntários com método padronizado, e o mercado regulado de carbono criado por lei federal em 2024 (o SBCE) foi desenhado para fixar obrigações por instalação e por empresa. Este texto não verifica o estágio atual da regulamentação, então vale conferir isso diretamente.

Uma coisa, porém, já está clara na lei como escrita: a produção agropecuária primária, segunda maior fonte nos dados do Seeg, com 30%, ficou fora das obrigações do teto. O setor com a segunda maior pegada não é o primeiro alvo do mercado.

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Falta aqui um número de comparação. O material não traz referência por empresa nem por setor para companhias brasileiras, e os totais nacionais do Seeg não substituem isso. Quem compara o próprio inventário com o total de 2,06 bilhões de toneladas aprende muito pouco. Os dados setoriais da mesma série do Seeg, ou inventários publicados no registro voluntário, seriam a régua certa. Nenhum dos dois está na fonte.

Quem ganha e quem perde

Os dados de 2025 ajudam exportadores e compradores que precisam demonstrar que suas cadeias não estão ligadas a novo desmatamento. O Seeg registra queda em todos os biomas e estados, com as maiores reduções na Amazônia e no Cerrado. Quem depende da conversão de vegetação nativa para expandir perde espaço, e o Seeg aponta a conversão para agropecuária e urbanização como núcleo da categoria de uso do solo.

Do outro lado, as geradoras a gás e os compradores da energia delas carregam o resultado da eletricidade. Operadores municipais de resíduos e gestores de aterros enfrentam o setor de crescimento proporcional mais rápido. Frotistas e distribuidoras de combustível ficam expostos ao resultado dos transportes, onde o Seeg indica maior consumo de diesel e gasolina.

O que isso significa para as empresas brasileiras

Pense numa empresa que reporta emissões de escopo 2 pelo método de localização. O dado de entrada dela é o fator médio da rede elétrica. Se o acionamento de termelétricas elevar o fator publicado pelo governo federal, o mesmo consumo de energia gera um número maior no relatório, sem que a empresa tenha mudado nada. As áreas financeira e de sustentabilidade devem prever esse efeito e explicá-lo nos relatórios, em vez de deixar que pareça retrocesso operacional.

Empresas com grandes cadeias de suprimento ligadas à terra podem usar a queda do desmatamento para abrir a conversa com fornecedores. A redução nacional, no entanto, não prova nada sobre uma fazenda ou origem específica. A rastreabilidade por talhão continua sendo a evidência que os compradores pedem.

Os próximos cortes nacionais precisam vir de resíduos, transporte e energia, porque o Seeg não mostra redução em nenhum deles. Quem desenvolve projetos de biogás de aterro, eficiência e troca de combustível trabalha justamente nesses setores. Se um mercado regulado vai fazer esses cortes valerem dinheiro depende de regras ainda por aplicar, e essa é a pergunta em aberto por trás do número de manchete deste ano.

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