O minuto
- Google e McKinsey fecharam a compra de créditos de remoção de carbono da Working Trees, empresa de San Francisco fundada em 2021. Os contratos de longo prazo somam 320.000 toneladas métricas em 10 anos, segundo a empresa.
- O dinheiro vai para replantar 8.700 hectares de pasto em condição ruim ou intermediária, uma fatia de um projeto maior, de 50.000 hectares, no sudeste da Amazônia e no Cerrado, informaram as empresas.
- Os dois acordos passaram pela Symbiosis Coalition, compromisso de compradores iniciado em 2024 com meta de contratar até 20 milhões de toneladas em créditos de remoção até 2030. A coalizão cita estimativas científicas de que o silvopastoril poderia tirar entre 300 milhões e 1 bilhão de toneladas métricas de CO₂ da atmosfera por ano no mundo.
Por que importa: A maioria dos grandes contratos de remoção de carbono anunciados até agora envolve tecnologia de engenharia. Este paga por árvores plantadas em linhas dentro de pasto com gado em operação, num país que ainda escreve suas próprias regras de mercado de carbono. Os compradores são estrangeiros. A terra e os proprietários são brasileiros. E o anúncio, noticiado pelo ESG Today, não diz qual conjunto de regras governa esses créditos.
Onde entram as regras brasileiras
O Brasil tem um marco nacional para o mercado de carbono: a Lei 15.042, de 2024, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). Ele estabelece um mercado regulado, com limites para grandes emissores, e um certificado de redução ou remoção verificada de emissões (CRVE) como unidade negociável. Os créditos da Working Trees foram contratados por compradores privados, por meio de uma coalizão, o que os coloca no mercado voluntário, espaço fora do sistema regulado criado pela lei.
Essa diferença importa para quem desenvolve projetos parecidos. Um crédito vendido ao Google ou à McKinsey segue o padrão e as regras de verificação combinados em contrato. Um CRVE seguiria as metodologias e o registro que as autoridades brasileiras definirem. O anúncio não diz qual metodologia ou registro certifica os créditos da Working Trees, nem se o projeto pretende buscar reconhecimento no sistema brasileiro mais adiante. Confira com o órgão federal responsável a situação atual da regulamentação do SBCE antes de assumir qualquer um dos caminhos.
Um número de comparação falta aqui de propósito. A fonte não traz a área total de pastagem degradada no Brasil, e esta matéria não estima esse valor. Sem ele, não dá para medir com honestidade os 8.700 hectares financiados contra o tamanho da oportunidade nacional. A informação disponível é só que esses hectares compõem uma parte do projeto de 50.000 hectares.
O que ainda não está decidido
Vários termos não são públicos. As empresas não divulgaram o preço por tonelada, o cronograma de entrega ao longo dos 10 anos, o padrão de verificação nem a relação entre as 320.000 toneladas e os 8.700 hectares financiados. Dividir um valor pelo outro geraria um número que a fonte não sustenta, já que os créditos podem depender de área além da financiada.
Duas coisas resolveriam as dúvidas para o mercado brasileiro. A primeira é a publicação da metodologia e do registro do projeto, para que desenvolvedores comparem com o que o SBCE vai exigir. A segunda é a definição, pelas autoridades brasileiras, de como se mede a remoção de sistemas agroflorestais em pasto e quais delas poderão ser emitidas como CRVE. Enquanto as duas não existirem, o proprietário que receber um contrato como esse compara um acordo privado com um marco público ainda em construção.
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Minha leitura: a metodologia ausente é a maior lacuna do anúncio, maior até que o preço que não foi divulgado. Sem ela, 320.000 toneladas é uma promessa, não uma medição, e ninguém de fora do negócio consegue testá-la.
Quem ganha e quem perde
Proprietários que aderirem ao projeto ganham recursos para o plantio e, segundo as empresas, receita de longo prazo com espécies de madeira como mogno africano e teca. Desenvolvedores de projeto ganham um contrato de referência, que mostra que grandes compradores corporativos assinam compras de vários anos para remoção baseada na natureza no Brasil. Os compradores levam créditos ligados ao uso da terra, e não a uma tecnologia ainda em escala inicial.
O lado menos óbvio são as empresas brasileiras que querem comprar crédito no próprio país. Contratos longos fechados cedo por grandes compradores estrangeiros podem tirar oferta do mercado local, por exemplo para empresas que precisarão compensar no SBCE ou que têm metas voluntárias. Isso é inferência analítica, não declaração das empresas. As espécies de madeira comercial também levantam uma pergunta que a fonte não responde: como o projeto pesa a restauração com nativas contra a renda da madeira plantada ao contabilizar a remoção.
O que isso significa para pecuaristas, desenvolvedores de projeto e compradores de crédito
Pecuaristas da Amazônia e do Cerrado podem ler o anúncio como sinal de demanda por silvopastoril, mas devem pedir a qualquer desenvolvedor os termos que as empresas não publicaram: por quanto tempo a área fica comprometida, quem é dono dos créditos, como a receita da madeira é dividida e o que acontece se as árvores morrerem. Desenvolvedores de projeto devem documentar cedo as escolhas de metodologia e registro, porque um projeto que queira reconhecimento no SBCE depois precisará de registros compatíveis com as exigências brasileiras. Empresas brasileiras compradoras de crédito devem mapear quais fornecedores já venderam a produção futura e manter os créditos voluntários bem separados de qualquer unidade aceita para conformidade regulada.
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Toda segunda: o que mudou na regulamentação do mercado de carbono do Brasil, com o link da fonte. Deixe seu e-mail e entre na lista de lançamento.
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