esgminute Notícias ESG, créditos de carbono e sustentabilidade, em 1 minuto
Regulação

Fiscalização da ESMA em 2026 chega a fornecedores brasileiros e empresas com listagem na UE

Read in English → Por · Atualizado em 19/10/2026, 15:00 · ⏱ leitura de 5 min

O minuto

  • A ESMA, reguladora dos mercados de valores mobiliários da UE, publicou seu comunicado anual de prioridades de fiscalização do relato corporativo, segundo o ESG Today em 19 de outubro de 2026. O relato de sustentabilidade continua na lista, com a materialidade como área prioritária.
  • A ESMA afirmou que alguns emissores descrevem impactos positivos com mais detalhe que os negativos, o que pode não dar aos usuários uma visão equilibrada. Também vai focar na conexão entre impactos, riscos e oportunidades (IROs), políticas, ações e metas (PATs) e métricas.
  • Os fiscalizadores vão concentrar-se nas normas ESRS E1 (Mudanças Climáticas) e S1 (Força de Trabalho Própria). A ESMA apontou metas descritas como “baseadas na ciência” ou “1,5 grau” sem explicação e pediu valores absolutos de emissões, não só de intensidade.

Por que importa: Um comunicado de fiscalização não cria regra nova. Ele indica quais exigências já existentes os supervisores vão checar com mais rigor e onde um relatório tem mais chance de gerar questionamento. Para quem reporta pelas normas europeias, ou fornece dados a quem reporta, é uma prévia da revisão, e bem direta.

Duas definições de materialidade

O texto da ESMA pressupõe dupla materialidade: a empresa avalia como temas de sustentabilidade afetam suas finanças e como suas atividades afetam pessoas e meio ambiente. É essa lógica que sustenta a crítica à divulgação desequilibrada de impactos. A empresa que detalha seus benefícios e resume seus danos falha na avaliação, não apenas no estilo do texto.

O Brasil seguiu outro caminho. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estruturou o relato de sustentabilidade em torno das normas do ISSB (IFRS S1 e S2), adaptadas pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS). Esse arcabouço se baseia em materialidade financeira, ou seja, informação relevante para a avaliação de valor da empresa pelos investidores. Uma companhia aberta brasileira pode, portanto, cumprir a regra local sem nunca conduzir uma avaliação formal de dupla materialidade e sem ser cobrada a dar aos impactos negativos o mesmo detalhamento dos positivos.

A diferença prática aparece nos temas que a ESMA citou. Força de trabalho (ESRS S1) é uma norma temática completa na Europa. Na arquitetura do ISSB, temas sociais entram pelos requisitos gerais e apenas quando afetam as perspectivas da empresa. Um emissor brasileiro com listagem na UE ou subsidiária regulada lá pode ter um conjunto de dados de pessoal que satisfaz a CVM e ainda assim ficar aquém do que um fiscalizador da ESMA espera. Eu não apostaria que a versão da CVM basta.

O que ainda não está decidido

O comunicado não diz quantos relatórios serão revisados, que sanções virão ou como as autoridades nacionais vão aplicá-lo. Essas decisões ficam com o fiscalizador de cada Estado-membro, e a fonte não traz números sobre resultados de fiscalizações anteriores. O alcance de quem precisa reportar pela diretiva europeia também foi objeto de revisões, que a fonte não aborda. Por isso, cada empresa brasileira deve confirmar o próprio enquadramento antes de presumir que está dentro ou fora.

No lado brasileiro, a dúvida é se a CVM ou o CBPS caminharão para uma materialidade de impacto. Nada no material aponta nessa direção. Também não tenho um número verificado de quantas empresas locais estão expostas ao relato europeu por subsidiárias ou listagens. Esse dado de comparação falta e não deve ser estimado.

Quem ganha e quem perde

Investidores e analistas europeus ganham se os emissores seguirem a orientação, porque impactos negativos e metas não cumpridas ou abandonadas passam a ficar visíveis. Perdem os emissores de linguagem frouxa, em especial os que usam “baseada na ciência” como rótulo sem mostrar o método. Grandes compradores europeus assumem um custo novo: a ESMA disse que a divulgação de IROs deve cobrir a cadeia de valor a montante e a jusante, então eles precisam de dados dos fornecedores. Fornecedores brasileiros ficam do lado que recebe esses pedidos.

O que isso significa para empresas brasileiras

Primeiro, exportadores que vendem para cadeias europeias devem esperar pedidos de dados mais precisos: números de emissões e condições de trabalho, além das políticas por trás deles. Responder com um compromisso genérico é o padrão que a ESMA criticou nos achados sobre força de trabalho própria, em que emissores não separavam compromissos amplos de metas reais.

Segundo, qualquer empresa brasileira que publique meta de descarbonização deve revisar a redação. Se a meta cita 1,5 grau ou alinhamento científico, o relatório precisa dizer se e como ela atende a esse critério, e trazer valores absolutos. A fonte não registra comunicado equivalente de reguladores brasileiros, mas o risco de redação vale em qualquer jurisdição em que uma alegação possa ser considerada enganosa.

Terceiro, empresas com listagem ou subsidiária na UE devem mapear onde o relatório alinhado à CVM difere da expectativa europeia. Comece pelos impactos negativos e pela cobertura da cadeia de valor, depois confira se a demonstração de sustentabilidade bate com o relatório financeiro. A ESMA registrou divergências entre os dois nos IROs.

Quarto, metas precisam de status. A ESMA pediu que os emissores informem quando uma meta foi cumprida, substituída, perdida ou abandonada. A empresa brasileira que mudou um objetivo sem alarde deve registrar a mudança, porque abandono não divulgado é justamente o que a reguladora diz que vai procurar.

Quer isto por e-mail?

Ainda não existe newsletter. Deixe seu e-mail e você será avisado no dia em que existir, antes de qualquer outra pessoa.

Politica de Privacidade