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Créditos de Carbono

Verra emite primeiros creditos de carbono por resgate de alimentos sob metodologia VM0046

Read in English → Por · Atualizado em 09/10/2026, 15:00 · ⏱ leitura de 4 min

O minuto

  • A Verra aprovou 721.649 Verified Carbon Units (VCUs) sob a metodologia VM0046, gerados pelo projeto Brightly nos Estados Unidos entre marco de 2020 e dezembro de 2023.
  • O projeto redirecionou 3,1 bilhoes de libras de alimentos resgatados que se qualificaram para creditacao de carbono, de um total de 15,3 bilhoes de libras, com cada credito representando uma tonelada de emissoes evitadas de gases de efeito estufa.
  • Os creditos receberam classificacao A ex-ante da BeZero Carbon, e a rede da Brightly agora inclui 198 bancos de alimentos da Feeding America e 28 grupos independentes de resgate de alimentos, cobrindo cerca de 97% dos condados dos EUA.

Por que importa: Perda e desperdicio de alimentos respondem por 8% a 10% das emissoes globais de gases de efeito estufa, segundo a FAO, mas os mercados de carbono historicamente se concentraram em projetos florestais, energia renovavel e captura de metano. A VM0046 cria um arcabouco padronizado que permite a organizacoes de resgate de alimentos monetizar emissoes evitadas de metano, potencialmente alterando seu modelo de financiamento de dependencia de doacoes para receita baseada em mercado.

O que muda para o Brasil e como o cenario local se compara

O Brasil possui o maior programa voluntario de creditos de carbono em desenvolvimento na America Latina, mas ainda nao conta com uma metodologia nacional equivalente a VM0046 para desperdicio de alimentos. O Sistema de Registro Nacional de Creditos de Carbono (SBCE), criado pelo marco regulatorio aprovado em 2024 (Lei 15.042/2024), ainda esta em fase de regulamentacao pela CVM e pelo Comite Interministerial sobre Mudanca do Clima. Ate que o SBCE defina quais metodologias serao aceitas para o mercado regulado brasileiro, projetos de resgate de alimentos no pais precisariam recorrer a padroes internacionais como a propria Verra ou a Gold Standard para gerar creditos verificados.

O desperdicio de alimentos no Brasil e significativo. Segundo dados da ONU citados pelo proprio UNEP, 19% dos alimentos sao desperdicados nos niveis de varejo, food service e domicilios globalmente. Dados especificos e atualizados sobre o volume total de desperdicio alimentar no Brasil, em toneladas, com metodologia comparavel a do UNEP, nao estao disponiveis nesta apuracao, o que impede uma comparacao direta com os numeros globais de 1,05 bilhao de toneladas citados na fonte.

Para empresas brasileiras do setor de alimentos, a aprovacao da VM0046 cria um precedente concreto. Redes de varejo, frigorificos e operadores de food service que ja possuem programas de doacao de excedentes poderiam, em tese, registrar projetos na Verra e gerar VCUs a partir de atividades de resgate de alimentos realizadas no Brasil. A metodologia exige, porem, que se estabeleca uma baseline historica conservadora, o que significa que apenas alimentos resgatados acima dos niveis anteriores seriam elegiveis para creditacao. Empresas que ja doam grandes volumes podem encontrar margem limitada para gerar creditos adicionais.

O que ainda nao esta decidido

O preco dos creditos de desperdicio alimentar e a primeira incognita. Creditos elegiveis para o CORSIA foram negociados entre aproximadamente US$ 15 e US$ 22 por tonelada em 2025, enquanto a maioria dos outros tipos ficou entre US$ 1 e US$ 14, segundo o Banco Mundial. Onde os creditos da VM0046 se posicionarao nessa faixa depende de os compradores atribuirem um premio a combinacao de reducao de metano com co-beneficios de seguranca alimentar. Nao existem dados publicos de precificacao para creditos VM0046 ate o momento.

A demanda tambem e incerta. As aposentadorias (retirements) de creditos de carbono cairam mais de 10% em 2025, mesmo com acordos de compra futura (offtake agreements) alcancando cerca de US$ 12 bilhoes, tres vezes o valor de 2024. Essa distancia entre compromissos futuros e uso efetivo sugere que o mercado ainda esta definindo quais tipos de credito manterao valor a longo prazo.

No contexto brasileiro, a questao central e se o SBCE, quando regulamentado, ira reconhecer creditos de desperdicio alimentar como categoria elegivel para o mercado regulado, ou se esses projetos ficarao restritos ao mercado voluntario. Essa definicao depende das regulamentacoes que a CVM e o Comite Interministerial ainda precisam publicar. Ate la, projetos brasileiros de resgate de alimentos operam sem certeza sobre o enquadramento regulatorio domestico.

Quem ganha e quem perde

Bancos de alimentos e organizacoes de resgate sao os beneficiarios mais diretos. A Feeding America indicou que a maioria das receitas liquidas das vendas de creditos retornara as organizacoes participantes, financiando caminhoes, motoristas, refrigeracao e pessoal. Para organizacoes que dependem de doacoes com disponibilidade flutuante, a receita de carbono pode oferecer um fluxo mais previsivel.

No Brasil, organizacoes como o SESC Mesa Brasil e bancos de alimentos regionais poderiam se beneficiar de um modelo semelhante, desde que consigam arcar com os custos de validacao e verificacao exigidos pela Verra. Esses custos nao foram divulgados publicamente para o projeto Brightly, o que dificulta avaliar a viabilidade para operacoes menores.

Operadores de aterros sanitarios enfrentam pressao indireta. Se o resgate de alimentos escalar e desviar volumes significativos dos fluxos de residuos, as receitas de taxas de disposicao podem cair em regioes onde o resgate financiado por carbono se tornar predominante. No Brasil, onde a Politica Nacional de Residuos Solidos ja exige hierarquizacao do tratamento de residuos, essa pressao se somaria a obrigacoes regulatorias existentes.

Categorias tradicionais de creditos de carbono (florestais, energia renovavel) enfrentam concorrencia adicional pelos orcamentos de compradores. Projetos que dependem exclusivamente de remocao de carbono, sem co-beneficios sociais, podem ter mais dificuldade para se diferenciar diante de um tipo de credito que combina clima e seguranca alimentar.

via CarbonCredits.com

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