O minuto
- South Pole e Gaïago emitiram os primeiros créditos de carbono do mundo sob a metodologia Soil Organic Carbon Framework do Gold Standard, cobrindo 6.000 hectares verificados na França e na Bélgica.
- O European Soil Revitalization Programme, lançado em 2022, reúne 727 fazendas e projeta a remoção de 264.174 tCO₂e durante o primeiro período de creditação, quando atingir a cobertura total de mais de 39.000 hectares.
- O programa utiliza o protocolo GSOC MRV da FAO, exige práticas regenerativas como plantio direto e cobertura permanente do solo, e requer a aplicação do bioestimulante NUTRIGEO L da Gaïago.
Por que importa: Créditos de carbono de solo sempre enfrentaram desconfiança de compradores corporativos por causa da dificuldade de mensuração e da incerteza sobre permanência. Uma certificação Gold Standard sobre terras agrícolas europeias altera o patamar de credibilidade dessa classe de ativos. Com o SBTi apertando seu Corporate Net-Zero Standard e restringindo o papel aceitável de compensações, empresas precisam de créditos de remoção que resistam a auditorias rigorosas. Essa emissão cria uma referência para projetos de carbono orgânico de solo e levanta questões diretas para mercados fora da Europa, incluindo o Brasil, que estão desenvolvendo suas próprias estruturas.
O que ainda não está decidido
A emissão cobre 6.000 hectares de um total planejado de 39.282. Se o modelo se sustenta na escala completa é uma questão em aberto. A mensuração de carbono no solo é específica por localidade, e expandir de um conjunto controlado de fazendas para 727 operações em dois países introduz variabilidade de tipos de solo, condições climáticas e adesão dos agricultores. A metodologia do Gold Standard exige reverificação periódica, mas os intervalos específicos de monitoramento e as regras de buffer para lidar com reversões (por exemplo, se um agricultor voltar ao preparo convencional do solo) não foram detalhados publicamente para este programa. O horizonte operacional de 20 anos significa que a durabilidade dos créditos só será testada com o tempo.
Para compradores corporativos, uma questão central sem resposta é o preço. Créditos europeus de remoção baseados em solo com certificação Gold Standard podem exigir prêmio sobre créditos de regiões com custos de verificação menores, mas a sustentabilidade desse prêmio depende da demanda de empresas se alinhando aos requisitos do SBTi. O framework proposto pelo SBTi dá um papel definido a remoções, mas o padrão final ainda não foi consolidado.
Quem ganha e quem perde
Os ganhadores diretos são os agricultores europeus inscritos no programa, que recebem financiamento de carbono para cobrir custos de transição para práticas regenerativas, e os compradores corporativos na Europa que buscam créditos de remoção com cadeia de verificação curta e padrões elevados. A South Pole, como parceira de desenvolvimento dos ativos de carbono, fortalece sua posição no mercado voluntário europeu em um momento em que a empresa enfrentou desafios de reputação e mudanças de liderança.
Desenvolvedores de projetos de carbono de solo sob padrões menos rigorosos, ou em regiões sem certificação Gold Standard, enfrentam pressão competitiva. Se compradores passarem a tratar os créditos de solo com selo Gold Standard como referência, projetos certificados sob outras metodologias (como a VM0042 da Verra) podem precisar demonstrar rigor equivalente para manter demanda. Desenvolvedores no Sul Global, onde projetos de carbono de solo costumam ser mais baratos de implementar mas enfrentam logística de verificação mais complexa, podem ver seus créditos descontados em relação a essa referência europeia.
O que muda para o Brasil
O Brasil não tem equivalente direto à metodologia Soil Organic Carbon Framework do Gold Standard aplicada nesta escala em um programa formal de creditação. O mercado voluntário de carbono brasileiro opera principalmente sob a Verra e, de forma crescente, sob a estrutura que está sendo moldada pelo mercado regulado estabelecido pela Lei 15.042/2024 (que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões). Essa lei criou a estrutura legal para um sistema de cap-and-trade, mas as regras específicas para o tratamento de créditos de carbono de solo oriundos da agropecuária, se serão aceitos como compensações dentro do mercado regulado ou apenas em transações voluntárias, ainda estão sendo definidas por regulamentação.
O setor agropecuário brasileiro, que abrange dezenas de milhões de hectares de pastagens degradadas, tem potencial teórico enorme para sequestro de carbono no solo. A Embrapa conduziu pesquisas extensas sobre carbono orgânico em solos tropicais, mas a tradução dessa ciência em créditos verificados e negociáveis em escala tem sido lenta. O Plano ABC+ (Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária) promove práticas regenerativas incluindo plantio direto e sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), mas opera como linha de crédito subsidiada via Banco do Brasil e BNDES, não como mecanismo de creditação de carbono. Empresas brasileiras que acompanham a emissão europeia devem notar que a certificação Gold Standard exige infraestrutura específica de MRV (neste caso, o protocolo GSOC da FAO) que ainda não foi amplamente implantada em fazendas brasileiras. A lacuna não está na capacidade agrícola, mas nos sistemas de mensuração e verificação que atendam às expectativas de compradores internacionais.
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