O minuto
- Comece pelo que tem nota fiscal: combustível da frota, gás e conta de luz
- Multiplique cada consumo pelo fator de emissão oficial (MCTI para eletricidade no Brasil)
- Só depois avance para o escopo 3, que é maior e depende de dado de terceiros
Por que importa: A primeira medição não precisa ser perfeita, precisa ser honesta e repetível: é a série histórica que revela onde reduzir.
Pegada e inventário: a diferença
A pegada de carbono é o número final, em toneladas de CO2 equivalente (tCO2e), que resume as emissões de gases de efeito estufa associadas à empresa em um período. O inventário é o processo que produz esse número: definir fronteira, coletar dados, aplicar fatores e documentar o método. O padrão de referência é o GHG Protocol Corporate Standard, que cobre sete gases (CO2, CH4, N2O, HFCs, PFCs, SF6 e NF3) e os converte em CO2 equivalente pelo potencial de aquecimento global de cada um. No Brasil, o Programa Brasileiro GHG Protocol, criado em 2008 pelo FGVces e pelo WRI, adapta o método ao contexto nacional e oferece ferramenta de cálculo.
1. Defina a fronteira
Quais unidades, qual período e o que entra na conta. Um ano civil fechado é o recorte mais fácil de auditar depois.
Se a empresa tem mais de um endereço, escolha a abordagem de consolidação. O GHG Protocol admite participação societária (reportar a fração das emissões proporcional à participação em cada unidade) ou controle, financeiro ou operacional (reportar 100% das unidades que a empresa controla). Para quem está começando, o controle operacional costuma ser o mais simples: se a empresa opera a unidade e paga a conta, a emissão entra.
2. Colete o que já tem nota
Litros de combustível, metros cúbicos de gás, kWh de eletricidade. É o escopo 1 e 2, e costuma sair em uma tarde.
- Escopo 1 (emissões diretas): combustível dos veículos da empresa, gás natural ou GLP em caldeiras e fornos, diesel de geradores, emissões de processo e vazamento de gases refrigerantes de ar-condicionado e câmaras frias.
- Escopo 2 (energia comprada): eletricidade e, quando houver, vapor ou frio comprados de terceiros.
Organize tudo numa planilha por fonte, mês e unidade física. Lacunas (um mês faltando, uma leitura estimada pela distribuidora) devem ser sinalizadas, não preenchidas com chute. Uma nota dizendo “estimado pela distribuidora” vale mais que um número inventado, porque mostra onde está a incerteza.
3. Aplique os fatores de emissão
Cada unidade física vira CO2e ao ser multiplicada pelo fator correspondente: emissão = dado de atividade × fator de emissão. Para combustíveis, os fatores são relativamente estáveis, porque a química da queima não muda. Para eletricidade, o fator depende da matriz da rede.
No Brasil, o fator do Sistema Interligado Nacional para inventários é publicado pelo MCTI, no SIRENE, em planilhas com valores mensais e média anual. Use o fator do mesmo ano do inventário. Como a matriz elétrica brasileira é majoritariamente renovável, o escopo 2 tende a pesar pouco, e o peso real fica no escopo 1 (frota, combustão industrial) e no escopo 3.
O Scope 2 Guidance exige reportar o escopo 2 pelo método de localização (fator médio da rede). Onde existem instrumentos contratuais, como no Brasil, com mercado livre e certificados de energia renovável, a empresa também deve reportar o método de escolha de compra, que usa o fator do contrato ou do certificado.
Exemplo prático
Imagine uma distribuidora com um galpão e cinco caminhões. Para o ano civil, ela reúne:
- litros de diesel abastecidos (notas fiscais do posto ou do cartão-frota);
- kg de gás refrigerante repostos na manutenção do ar-condicionado (ordem de serviço do técnico);
- kWh das 12 contas de luz do galpão.
Cada linha recebe seu fator: diesel e refrigerante pelos fatores da ferramenta do Programa Brasileiro GHG Protocol, eletricidade pelo fator anual do MCTI. A soma dos dois primeiros é o escopo 1, a terceira é o escopo 2. A planilha final deve mostrar, para cada linha, a quantidade, a unidade, o fator, a fonte do fator e o resultado. Com isso, qualquer pessoa consegue refazer a conta no ano seguinte.
4. Ataque o escopo 3 por prioridade
O GHG Protocol define 15 categorias de escopo 3 no Corporate Value Chain Standard. Nenhuma empresa precisa quantificar todas no primeiro ano. Comece pelas grandes e mensuráveis: bens e serviços comprados, transporte e distribuição contratados e viagens a negócio.
Para cada categoria, declare o método:
- Baseado em gasto: converte o valor gasto em emissões por fatores econômicos. É o menos preciso e o mais fácil.
- Baseado em atividade: usa quantidades físicas, como tonelada-quilômetro transportada.
- Específico do fornecedor: usa o dado que o próprio fornecedor mediu.
À medida que a medição amadurece, a meta é migrar de gasto para atividade e dado do fornecedor. Declare o método usado em vez de fingir uma precisão que não existe. Os detalhes de cada categoria estão em como reportar escopos 1, 2 e 3 na prática.
5. Documente e publique
Registre a fronteira, a abordagem de consolidação, os fatores e suas fontes, as exclusões e o motivo de cada uma. Empresas que aderem ao Programa Brasileiro GHG Protocol podem publicar o inventário no Registro Público de Emissões. O programa concede selos conforme a qualidade: bronze para inventário parcial, prata para inventário completo e ouro para inventário completo verificado por terceira parte.
Erros comuns
- Misturar métodos entre anos. Se o frete foi medido por gasto no primeiro ano e por tonelada-quilômetro no segundo, a variação reflete a troca de método, não a mudança nas emissões. Mantenha o método por pelo menos dois ciclos e, quando mudar, recalcule o ano anterior.
- Esquecer os gases refrigerantes. Recargas de ar-condicionado e refrigeração entram no escopo 1 e podem ser relevantes em varejo e alimentos.
- Usar fator de outro país. Fator de eletricidade europeu ou americano distorce o escopo 2 de uma operação no Brasil.
- Somar compensação dentro da pegada. Crédito de carbono comprado é reportado à parte; ele não reduz o inventário bruto.
O que muda com o mercado regulado
A Lei 15.042/2024 obriga instalações acima de 10.000 tCO2e por ano a apresentar plano de monitoramento e relato anual verificado. Quem já mede pelo GHG Protocol estará mais bem posicionado, mas terá de descer ao nível de cada instalação. Veja o que muda com o SBCE para a sua empresa.
Perguntas frequentes
Preciso de consultoria para começar?
Não para a primeira medição. Consultoria e verificação de terceira parte entram quando a empresa precisa de asseguração formal.
Qual a diferença entre pegada e inventário?
Inventário é o processo estruturado de medição; pegada é o número que sai dele.
Com que frequência devo medir?
Anualmente, mantendo o mesmo método, para que a comparação entre anos tenha sentido.
Existe ferramenta gratuita?
Sim. O Programa Brasileiro GHG Protocol disponibiliza ferramenta de cálculo de emissões, acessada mediante cadastro no site do FGVces.
Eletricidade de fonte renovável zera o escopo 2?
Só no método de escolha de compra, e se houver contrato ou certificado que comprove o atributo. No método de localização, o fator médio da rede continua valendo.
Leia também: entenda os escopos 1, 2 e 3.
Leia também: como montar o primeiro inventário de emissões.
Fontes primárias: GHG Protocol Corporate Accounting and Reporting Standard, edição revisada, em inglês (WRI/WBCSD, 2004); GHG Protocol Scope 2 Guidance, em inglês (WRI/WBCSD, 2015); GHG Protocol Corporate Value Chain (Scope 3) Standard, em inglês (WRI/WBCSD, 2011); Fatores de emissão de CO2 do Sistema Interligado Nacional para inventários (MCTI, SIRENE); Programa Brasileiro GHG Protocol e Registro Público de Emissões (FGVces); Lei 15.042/2024 (Planalto).
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