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Créditos de Carbono

Primeiros créditos de carbono de solo com selo Gold Standard são emitidos na Europa: o que muda para o Brasil

Read in English → Por · Atualizado em 09/10/2026, 18:00 · ⏱ leitura de 4 min

O minuto

  • South Pole, Gaïago e Gold Standard anunciaram em 6 de outubro de 2026 a primeira emissão mundial de créditos de carbono sob a metodologia Gold Standard Soil Organic Carbon Framework, cobrindo 6.000 hectares verificados na França e na Bélgica.
  • O European Soil Revitalization Programme abrange 727 fazendas e pode chegar a mais de 39.282 hectares, com previsão de remoção de 264.174 tCO₂e no primeiro período de creditação; a primeira coorte alcançou cerca de 3,1 tCO₂e por hectare por ano ao longo de três anos.
  • Créditos de carbono de solo são negociados a preços premium: créditos verificados pela Verra da eAgronom foram vendidos a cerca de €50 por tonelada em junho de 2026, enquanto a média do mercado voluntário no Q3 2026 foi de US$ 6,92 por crédito aposentado.

Por que importa: Carbono de solo sempre foi uma das categorias mais difíceis de certificar no mercado voluntário. Variabilidade entre talhões, risco de reversão e complexidade de medição mantiveram a maioria dos padrões longe de metodologias dedicadas. O fato de o Gold Standard ter agora uma emissão real sob um framework construído especificamente para solo indica que as barreiras técnicas, embora não eliminadas, podem ser superadas em escala de projeto. Combinado com o regulamento europeu de Remoções de Carbono e Agricultura de Carbono (CRCF), adotado em julho de 2026, o desenvolvimento cria um sistema de dupla via na Europa: uma trilha regulatória e uma trilha de mercado voluntário, ambas mirando o mesmo estoque de terras agrícolas.

O que muda para o agronegócio brasileiro

O Brasil tem o Plano ABC+ como principal instrumento de política para agricultura de baixo carbono, mas o programa funciona como linha de crédito subsidiado, não como sistema de certificação de carbono no solo. Não existe hoje no país um equivalente direto ao framework do Gold Standard para carbono orgânico de solo, nem uma metodologia nacional consolidada que permita ao produtor rural brasileiro emitir créditos verificados de sequestro de carbono em solo sob um padrão internacional reconhecido com a mesma especificidade.

Para empresas brasileiras do agronegócio que exportam para a Europa, a consolidação de padrões europeus de carbono de solo tem implicações concretas. À medida que compradores europeus passam a exigir créditos de remoção com certificação rigorosa, produtores brasileiros que queiram acessar esse mercado premium precisarão adotar metodologias compatíveis. O preço de cerca de €50 por tonelada observado na transação da eAgronom contrasta com valores muito mais baixos praticados em créditos de carbono genéricos, o que representa uma oportunidade de receita relevante para quem conseguir certificar. Porém, os custos de monitoramento, verificação e reporte (MRV) para carbono de solo são elevados, e a infraestrutura de laboratórios e modelagem de solos tropicais ainda não está no mesmo estágio de maturidade que a europeia.

O que ainda não está decidido

Várias questões estruturais permanecem em aberto, tanto na Europa quanto para quem observa de fora. Primeiro, a relação entre o framework voluntário do Gold Standard e o sistema de certificação CRCF da União Europeia não está definida. Os dois operam em paralelo, mas se a UE passar a exigir certificação CRCF para alegações de carbono agrícola dentro de suas fronteiras, créditos emitidos sob padrões voluntários separados poderão enfrentar questionamentos sobre equivalência regulatória. Nenhuma decisão sobre reconhecimento mútuo foi tomada até agora.

Segundo, permanência continua sendo o risco técnico central. Carbono armazenado no solo pode ser liberado se o agricultor voltar a práticas convencionais. O Gold Standard endereça isso por meio de requisitos no framework, mas o horizonte operacional de 20 anos deste programa vai testar se compromissos contratuais se sustentam diante de mudanças na propriedade da terra, nos preços de commodities e nas condições climáticas. As diretrizes de setembro de 2025 para uso de modelos de carbono de solo (cobrindo seleção, calibração, validação e verificação em sete etapas) são um avanço, mas o setor ainda não tem consenso sobre quais modelos funcionam melhor em diferentes tipos de solo e clima.

Terceiro, a escala é incerta. Os 6.000 hectares verificados representam cerca de 15% do potencial de 39.282 hectares do programa. Expandir dos adotantes iniciais para as 727 fazendas completas exigirá financiamento contínuo e suporte técnico. Se a receita de carbono por si só é suficiente para impulsionar a adesão, ou se precisa ser combinada com subsídios da Política Agrícola Comum da UE ou programas nacionais de incentivo, ainda não está claro. No Brasil, o mesmo dilema se aplica com ainda mais força: sem um mecanismo de certificação doméstico para carbono de solo, o produtor depende de padrões internacionais cujos custos de compliance podem não compensar em propriedades menores.

via CarbonCredits.com

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