A VM0051, chamada Improved Management in Rice Production Systems, é a metodologia da Verra que quantifica reduções de emissões de gases de efeito estufa (GEE) a partir de mudanças no manejo de água e cultivo em sistemas de arroz irrigado por inundação. Publicada em fevereiro de 2025 no âmbito do Verified Carbon Standard (VCS), a VM0051 substituiu a metodologia do MDL AMS-III.AU, inativada pela Verra em março de 2023. Se você está desenvolvendo um projeto de crédito de carbono em rizicultura, este guia cobre escopo, atividades elegíveis, adicionalidade, monitoramento e a documentação que você precisa preparar.
O Que é a VM0051 e Por Que Ela Importa
Arrozais são uma das maiores fontes antropogênicas de metano (CH4). A inundação contínua cria condições anaeróbicas onde bactérias metanogênicas produzem metano durante toda a safra. A VM0051 oferece um framework padronizado para medir e creditar as reduções de emissão quando produtores adotam práticas menos intensivas em emissões.
A metodologia está no Escopo Setorial 14 (Agricultura, Florestas e Outros Usos do Solo) dentro do programa VCS. Em agosto de 2026, o Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM) aprovou a VM0051 v1.1 como aderente aos Core Carbon Principles (CCPs). Logo em seguida, a Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) confirmou elegibilidade CORSIA, o que significa que créditos VM0051 podem ser usados por companhias aéreas no Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation.
Essas aprovações posicionam a VM0051 como a principal via do mercado voluntário para projetos de redução de metano em arroz no mundo.
Escopo e Atividades Elegíveis da VM0051
A VM0051 cobre projetos que implementam uma ou mais práticas de manejo aprimorado em sistemas de produção de arroz irrigado. A metodologia vai bem além do simples manejo de água. As atividades elegíveis incluem:
- Alternate Wetting and Drying (AWD): Drenagem periódica dos arrozais para quebrar condições anaeróbicas e reduzir a geração de metano. Estudos referenciados pelo IRRI indicam que o AWD pode cortar emissões de metano em até 48% e reduzir o uso de água em cerca de 30%.
- Aplicação de metanotróficas: Introdução de bactérias oxidadoras de metano para reduzir a liberação líquida de metano nos solos de várzea.
- Redução do período de cultivo: Diminuição da duração da estação de inundação para limitar a janela de metanogênese.
- Eliminação da queima de resíduos: Prevenção da queima a céu aberto de palha de arroz e resíduos de colheita.
- Cultivares de baixa emissão e ciclo curto: Troca por variedades de arroz que produzem menos metano ou que maturam mais rápido.
- Manejo aprimorado de fertilizantes nitrogenados: Otimização do tipo, momento e taxa de aplicação de fertilizantes para reduzir emissões de óxido nitroso (N2O).
- Aplicação de biochar: Incorporação de biochar ao solo dos arrozais como condicionador.
- Uso eficiente de combustíveis fósseis nas operações de campo: Redução de emissões de CO2 no consumo energético da propriedade, como bombeamento de água.
Um projeto pode combinar múltiplas intervenções. A metodologia contabiliza três gases de efeito estufa: CH4, N2O e CO2.
Como a VM0051 Define a Linha de Base e Quantifica Reduções
Uma das características mais relevantes da VM0051 é sua linha de base dinâmica. Em vez de fixar uma linha de base histórica, a metodologia ajusta as emissões da linha de base com base nas condições climáticas reais durante o período de creditação. Isso reduz o risco de sobre-creditação em anos com emissões naturalmente mais baixas e de sub-creditação em anos com emissões mais altas.
A metodologia também integra MRV digital (Medição, Relato e Verificação). Dados de sensoriamento remoto, incluindo imagens de satélite, podem ser usados para verificar práticas de manejo de água em grandes áreas, reduzindo a dependência de inspeções de campo manuais. A Verra publicou a VM0051 em formato digitalizado no Verra Project Hub, facilitando a coleta e o reporte de dados.
A quantificação cobre emissões do projeto, emissões da linha de base e vazamento (leakage). A redução líquida de emissões é igual às emissões da linha de base menos as emissões do projeto menos o vazamento, seguindo as regras contábeis padrão do VCS.
Requisitos de Adicionalidade
A VM0051 fortaleceu os critérios de adicionalidade em comparação com a metodologia predecessora do MDL. Para demonstrar adicionalidade, os desenvolvedores de projeto precisam comprovar que:
- Excedente regulatório: A atividade do projeto não é exigida por nenhuma lei, regulamento ou mandato vinculante na jurisdição anfitriã.
- Análise de barreiras ou benchmark de desempenho: O projeto enfrenta barreiras (financeiras, institucionais ou tecnológicas) que impedem a adoção em condições normais de mercado, ou fica abaixo de um benchmark de desempenho definido.
- Análise de prática comum: A prática proposta ainda não é amplamente difundida entre os rizicultores na região do projeto.
Dados de sensoriamento remoto podem ser usados para apoiar a análise de prática comum, demonstrando o regime de manejo de água predominante na área do projeto.
Checklist de Elegibilidade Passo a Passo
Antes de investir na elaboração completa da Descrição do Projeto (PD), use esta lista para verificar se sua atividade se qualifica pela VM0051.
- Confirme o sistema de cultivo. O projeto deve envolver produção de arroz irrigado por inundação. Sistemas de arroz de sequeiro ou de terras altas não se qualificam.
- Identifique intervenções elegíveis. Mapeie suas atividades planejadas contra a lista acima. Pelo menos uma intervenção reconhecida deve ser implementada.
- Defina o limite do projeto. Delimite a área geográfica (hectares de arrozais) e as fontes, sumidouros e reservatórios de GEE dentro do limite. Inclua CH4 do cultivo de arroz, N2O do uso de fertilizantes e CO2 do consumo de combustíveis fósseis.
- Teste a adicionalidade. Execute o teste de excedente regulatório para sua jurisdição. Prepare uma análise de barreiras ou benchmark de desempenho. Levante dados sobre taxas de adoção da prática proposta na região.
- Verifique o cenário de linha de base. Documente as práticas agrícolas atuais, o regime de manejo de água, o uso de fertilizantes e a seleção de cultivares. Isso se torna a base para o cálculo da linha de base dinâmica.
- Planeje o sistema de monitoramento. Identifique quais dados serão coletados (níveis de água, duração da inundação, registros de aplicação de fertilizantes, dados de produtividade, dados meteorológicos) e como sensoriamento remoto ou sensores de campo serão implantados. Garanta que o plano de monitoramento esteja alinhado com os requisitos de MRV digital da VM0051.
- Avalie salvaguardas. A VM0051 inclui requisitos para proteger contra perdas de carbono orgânico do solo (SOC). Se sua intervenção altera o preparo do solo ou os aportes de matéria orgânica, você deve demonstrar que o SOC não está sendo depletado.
- Confirme o período de creditação. Dentro do programa VCS, defina um período de creditação consistente com as regras do VCS. Projetos já registrados mostram períodos de aproximadamente sete anos (por exemplo, abril de 2025 a março de 2032 no primeiro projeto listado sob VM0051).
Documentos a Preparar
A submissão de um projeto VM0051 à Verra exige:
- Descrição do Projeto (PD) seguindo o template de Descrição de Projeto do VCS
- Plano de Monitoramento detalhando métodos de coleta de dados, frequência e garantia de qualidade
- Demonstração de adicionalidade com evidências de suporte
- Documentação do cenário de linha de base com dados históricos de cultivo
- Registros de consulta a partes interessadas conforme exigido pelo VCS Standard
- Avaliação de salvaguardas de SOC
- Especificações técnicas de sensoriamento remoto ou MRV digital, se aplicável
Todos os documentos são submetidos pelo Verra Project Hub. O documento oficial da metodologia, VM0051 Improved Management in Rice Production Systems, deve ser consultado diretamente no site da Verra para o conjunto completo de equações, parâmetros e especificações técnicas.
Erros Comuns
- Assumir que todo sistema de arroz se qualifica. Somente sistemas de arroz irrigado por inundação são elegíveis. Projetos em arroz de sequeiro não passam na validação.
- Ignorar a contabilidade de N2O. Se o projeto altera o manejo de fertilizantes, as emissões de N2O devem ser monitoradas. Não contabilizar aumentos de N2O decorrentes de certas mudanças de fertilização pode reduzir ou anular as reduções reivindicadas.
- Evidência fraca de prática comum. Validadores e reguladores estão cada vez mais rigorosos sobre se AWD ou outras intervenções já estão se tornando prática padrão na região. Use dados de satélite e estatísticas governamentais para sustentar seu argumento.
- Negligenciar salvaguardas de SOC. Mudanças no regime hídrico podem afetar a dinâmica do carbono do solo. Projetos que não conseguem demonstrar estabilidade do SOC correm risco de achados negativos na validação.
- Usar a metodologia antiga do MDL. A AMS-III.AU foi inativada em março de 2023. Novos projetos devem usar a VM0051. Projetos iniciados sob a AMS-III.AU devem consultar as orientações de transição da Verra.
O Que Fazer Agora
Baixe o documento completo da metodologia VM0051 na página de metodologias da Verra. Percorra o checklist de oito etapas acima com seu agrônomo e consultor de projetos de carbono. Se sua atividade passar, comece a redigir a Descrição do Projeto e o plano de monitoramento no Verra Project Hub. Para projetos que visam mercados de conformidade, note que a elegibilidade CORSIA e a aprovação CCP tornam créditos VM0051 viáveis para obrigações de compensação de companhias aéreas, o que pode influenciar o interesse de compradores e a precificação.
Uma aplicação recente de remoção de carbono em arrozais é a parceria entre Google e Terradot, que interessa diretamente a produtores de arroz no Brasil.
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